Cuidado ao Falar


Precisamos tomar cuidado com tudo aquilo que falamos. Ao dizer que alguém buscou ou mereceu o mal que recebeu, estamos dizendo à vida que sabemos que merecemos todo o mal que nos atinge.

É certo que ninguém recebe o que não merece, pois a lei do retorno é infalível. Mas nunca nos esqueçamos de que a lei de causa e efeito vale tanto para o outro quanto para nós, e que aquilo que atiramos no próximo, um dia,  alguém virará contra nós.  O mal só existe porque ainda existem pessoas que acreditam nele como instrumento de uma justiça que, muitas vezes, é invocada para camuflar o ódio e a vingança, e que nada mais é do que uma justificativa para extravasar um instinto nocivo ou um sentimento ruim.

Quando o mal atinge nosso semelhante, nossa reação deve ser a mais próxima possível da compaixão e da caridade. Sem amor, o ser humano desaba na truculência e se aproxima da barbárie, ao mesmo tempo em que se distancia dos valores que enobrecem a alma com o exercício da virtude.

Não temos o direito de julgar ninguém, porque somos todos, sem exceção, falíveis diante da vida.  Nenhum de nós pode ostentar o título da perfeição nem o rótulo da nobreza infinita.  Somos todos viajantes inexperientes no imenso navio que se chama mundo, caminhando em busca de experiências úteis ao nosso aprendizado moral.

Deus não cobra nem pune.  Quem o faz é a própria consciência, que dispensa acusadores por ser, ela mesma, órgão de acusação e juiz.  Ninguém passa impune pelos corredores da consciência, que ilumina os recantos sombrios de quem se esforça para acertar, mas que também obscurece a passagem daqueles que persistem em viver na ilusão.

O que damos é o que recebemos, e se o outro recebe o mal que um dia ofertou, nós não precisamos fazer disso motivo de crítica nem de satisfação pessoal, pois não devemos nos esquecer de que poderemos ser os próximos a acolher a desdita. Sejamos mais verdadeiros, ao invés de tentar enganar a nós mesmos com a falsa ideia da tolerância e da piedade.

Lembremos sempre de que seremos tratados da mesma forma como tratamos nossos semelhantes, porque a vida não é desigual nem compactua com injustiças.  Se somos espelhos uns dos outros, a imagem que vejo no próximo é apenas o reflexo de mim mesmo.  E se nossas palavras são ecos de todas as vozes, o que dizemos do próximo é também o que diríamos de nós mesmos.

Não importa o motivo que levou o outro ao sofrimento.  O que importa é a forma como reagimos diante disso.  Se  outro é ruim, o problema é dele.  Nós temos que ser bons.  Se o outro buscou ou não, é fato que interessa apenas a ele mesmo.  Nosso dever como pessoas de bem é orar, independentemente dos comprometimentos do outro, porque isso não nos diz respeito.  Nosso compromisso é com a caridade.

Orar é o mínimo que podemos fazer, caso não estejamos em condições de compreender, nem de aceitar, nem de respeitar, nem de sentir compaixão, nem de perdoar.  Orar, primeiramente, por nós, para que Deus tenha piedade do nosso orgulho e nos ajude a vencer os males da soberba e do desdém que envenenam nossos corações.  Depois, pelo próximo, a fim de que ele se fortaleça em sua dificuldade.

Porque, assim como acontece com o outro, também a nós coisas ruins podem acontecer.  E não é melhor que estejamos preparados?

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