O Melhor Amigo do Inimigo


Este é um livro que tenta nos alertar para a realidade do que se passa na natureza, da qual fazem parte todos os animais.  O mundo também é deles.

Todos aqueles que amam os animais provavelmente se identificarão com as palavras contidas nesta obra.

Bruce é um cão levado, sempre alegre e que, se pudesse, estaria em todos os lugares ao mesmo tempo.  Mesmo assim, sua energia não se esgotaria.  Logo, sua fidelidade – como a de qualquer animal de estimação – é inabalável.  Porém, isso não foi suficiente para lhe poupar.  Ele conhecerá o sofrimento e verá quão cruel o ser humano pode ser.

Mas nem tudo está perdido.  Em uma história emocionante e inspiradora, você aprenderá o verdadeiro sentido da amizade, da lealdade e da possibilidade real de mudar.  Todos merecem uma segunda chance, por pior que tenham sido no passado.

Editora Planeta – Academia 

Lançado em 2016

Ordem de lançamento:  23º

 379 páginas

Que tal experimentar o começo do livro?

Prólogo            

Era como um sonho em que predominava o sentido da audição. Em meio à confusão, o que sobressaía era o barulho; muito barulho.  Buzinas, apitos, gritos, estrondos…  Teria o céu vindo abaixo, fazendo despencar sobre a Terra fragmentos da Lua?

A visão, meio turva, não conseguia conciliar as luzes brilhantes com a dissonância dos ruídos estridentes, a única coisa que ele captava em meio àquela balbúrdia.  O que estaria acontecendo, meu Deus?  O mundo só podia ter disparado para fora do eixo, fugido da realidade e se atirado de cabeça num turbilhão de desordem.   Ou seria de tragédia?

Aos poucos, a vista foi retornando ao foco, embora se divertisse pregando-lhe peças. Alguém poderia explicar-lhe como é que o chão, uma coisa inanimada, sem vida, de repente, ganhara movimentos sinuosos, contorcendo-se num bailado de horror e agonia?  De onde, afinal, surgira aquele fantasma escarlate, todo animadinho, que serpenteava pelo chão com tamanha intimidade…?

Com vagar, os sons se reencontraram, estabelecendo uma certa harmonia na orquestra do terror.  Os fantasmas desfocados se reuniram em coisas únicas, dando forma a pessoas atarantadas e veículos enfileirados num tráfego lento.  Gente que corria de lá para cá, imprimindo pegadas vermelhas e viscosas no negrume do asfalto, ignorando que ele estava ali.

Moisés não entendia.  Por que ninguém notava sua presença naquele mundo desgovernado?  E que mundo era aquele, afinal? Como fora parar ali sozinho e onde estava seu amigo?  Aturdido, olhou para os lados, à procura…  No meio daquela multidão, era difícil encontrar.  Será que alguém o havia levado?

Vagueando de um lado a outro, o que encontrou foi o assombro, estampado nas feições que se desfiguravam em caretas horrendas diante dele.  A princípio, pensou que aqueles olhares perplexos se dirigiam a ele.  Aborrecido, torceu o nariz e gesticulou com os punhos, mandando a turba se danar.  O que pensavam que ele era?  Alguma atração bizarra?  Podia não ser nada agora mas, um dia, ele fora alguém.

Aos poucos, notou que os olhos das pessoas não se detinham nele, mas num ponto além.  Seguindo a direção para onde elas olhavam, o que viu foram mais e mais pessoas, algumas se movimentando freneticamente, outras, lutando para conter a multidão.  Tudo muito estranho.  Parecia até um acidente.  Mas quem teria se acidentado?  Um corpo jazia no chão, a poucos metros de onde ele estava.  Sabia que era um corpo porque estava coberto por um plástico preto.

Uma mulher com cara de enfermeira passou rente a ele.  Quase o pisou.  Ele puxou os pés rapidamente, pronto para reclamar de sua falta de atenção.  Foi quando, inesperadamente, o encontrou.

Ao lado da mulher, um homem de luvas levantava o corpo de um animal morto.  Havia sangue espalhado por todo o seu lindo pelo preto e branco, algumas respingando no chão.  O homem agiu com perícia.  Apanhou o saco preto que a mulher lhe estendia e lá enfiou o cachorro, sem nem ao menos verificar se ele estava em agonia.  Não estava.  Mesmo sem o ver, Moisés sabia que o cão estava morto.  Lágrimas lhe subiram aos olhos, descendo pelo rosto sem dificuldade.  Não tinha receio nem vergonha de chorar.  Era o seu amigo que ia ali.

Quando o homem passou por ele, Moisés decidiu segui-lo.  Precisava saber aonde ele estava levando o seu cachorro.  Não se lembrava de como o cão havia morrido, mas, já que acontecera, caberia a ele o privilégio de enterrar seu corpo.  Fora o único e verdadeiro amigo que tivera por toda a vida.  Tentando segurar o pranto, levantou-se de um salto, correndo atrás do sujeito, aos berros:

– Ei, moço!  Pera aí!  O cachorro é meu.  Moço!  Dá um tempo!

Nada.  O homem não ligou a mínima para seus apelos.  Mesmo assim, Moisés continuou atrás dele.  Precisava recuperar o corpo de seu amigo.  Queria despedir-se, beijar seu focinho gelado, como tantas vezes fizera ao longo da vida.  E prantear a sua dor.  Por que não dizer, o seu luto?

Já ia abrindo a boca para chamar novamente o camarada quando uma nova embalagem captou seu olhar.  Um outro corpo entrava no saco preto, seguindo o mesmo destino do cão.  Que coisa mais triste, ser relegado a um pacote sem nome no meio de uma estrada desconhecida. Um pouco hesitante, aproximou-se.  Estranhamente, ninguém tentou impedi-lo.  Mas também não lhe franqueou a passagem.  Muito menos o chamou para perguntar o que ele fazia ali.  As pessoas simplesmente agiam como se ele não existisse.  Por acaso, ele era invisível?

Com a ideia da invisibilidade, veio uma dor aguda na lateral do corpo.  Ele se curvou até quase tocar o chão, apertando as costelas para conter as pontadas agudas.  De cabeça abaixada, espiou por um buraco que se abria entre as pernas dos profissionais que trabalhavam ali e, com assombro, constatou a verdade da qual já desconfiava.  Uma mão enluvada puxava para cima o zíper do saco, encerrando para sempre, nas sombras da morte, o seu rosto magro que nunca mais abriria os olhos para aquele mundo.

De repente, a memória voltou, reproduzindo o inesperado infortúnio:  Tostão correra para o meio da rua seguindo um gato.  Nunca fizera isso.  Sempre caminhara ao seu lado, sem necessidade de ser amarrado na coleira.  Ele empurrava a velha carroça que os mais antigos conheciam como burrinho sem rabo, cheia de latas de alumínio e garrafas pet, que recolhia na praia para vender às cooperativas de reciclagem.

– Tostão! – gritara – Volta aqui!  Deixa de ser bobo!

Tostão não deu a mínima.  Saiu correndo atrás do gato, que disparou pela avenida movimentada.  Com sua agilidade natural, o gato se desvencilhou dos veículos que corriam em alta velocidade, chegando ao outro lado ofegante, porém, em segurança.  Tostão, contudo, não teve a mesma sorte.

Assim que avistou o ônibus correndo pela pista do BRT, Moisés soltou a carroça e praticamente se lançou no meio do tráfego.  Sons estrídulos de buzinas o deixaram tonto, mas ele não se deteve.  Correndo feito louco, atravessou a avenida, alcançando o cachorro ao mesmo tempo que o coletivo.  O motorista ainda tentou frear, mas a velocidade não deu aos freios a chance de travar apropriadamente as rodas, e o veículo se chocou contra os dois com violência fenomenal.  Moisés foi atirado longe, e Tostão pareceu flutuar.

Sangue espirrou por todo lado, encharcando carne e vísceras.  Ossos fraturados, veias dilaceradas, a morte de ambos foi imediata.  Não deu nem tempo de sofrer.  A certeza da morte não foi tão rápida.  Moisés sabia, mas preferiu não acreditar que havia morrido, apesar de sempre acreditar em vida após a morte.  Desde que a mãe partira, quase vinte anos antes, sabia que existia algo além daquela vida.  Vira-a, por diversas vezes, circulando pela casa, assim como ouvira seus conselhos, em sonhos, quando a mulher o deixara.

Por causa da traição da esposa, Moisés caíra na mendicância.  Tamanho o desespero, deu para beber, foi despedido do escritório de contabilidade, vendeu o que tinha e o que não tinha para afogar as mágoas na bebida.  Cheio de dívidas, perdeu tudo o que a mulher não levou, até a dignidade.  Sem dinheiro, largou o álcool.  Não gostava mesmo de beber.  Só o fazia porque era uma forma eficaz e rápida de não pensar na esposa.

A vida nas ruas lhe acenou como a única possibilidade de sobrevivência.  Moisés ainda tentou evitar aquele destino cruel, mas faltavam-lhe forças.  Vendido o apartamento, sua parte na meação, a princípio, deu para pagar um quartinho fétido numa pensão de quinta.  Mas até isso ele perdeu, no dia em que o cheque foi devolvido por falta de fundos.  A dívida do cheque especial se avolumara de tal forma, que nem o acordo que o banco lhe propusera permitiria quitá-la.  Podia entrar na Justiça para tentar diminuir os juros, mas de que adiantaria?  Ainda que tivesse que pagar apenas o valor histórico do débito, sem juros nem nada, o dinheiro não chegaria.

Apelou para alguns parentes, mas todas as portas se fecharam diante dele.  Sua única irmã lhe virou as costas, horrorizada com o flagelo em que ele se tornara.  Tinha alguns primos distantes, com os quais nunca se relacionara, que o receberam  pela porta dos fundos, alegando dificuldades financeiras.  Amigos… Sumiram assim que ele decaiu.  Só lhe restou mesmo o abandono das ruas.

Por esse motivo, ele se apegou tanto a Tostão.  Encontrara-o num saco de lixo jogado no rio Trapicheiros.  A descida até as águas não foi difícil, e ele conseguiu resgatar o animal com vida, um filhotinho de cão vira-lata preto e branco.  A afeição mútua foi rápida e recíproca, tornando-os amigos inseparáveis.  Tostão era a única criatura no mundo que realmente o amava.  E agora se fora.

A morte foi uma surpresa, mas não propriamente um choque.  No fundo, Moisés se questionava se aquele destino não teria sido melhor.  Talvez fosse, desde que ele não se separasse de seu mascote.  Aonde Tostão fosse, ele iria também.  Por isso, não hesitou em seguir o agente do centro de controle de zoonoses.  Entrou no carro e sentou-se junto ao corpo do cão, chorando sem parar.

– Onde está você, meu amigo? – indagou, angustiado por não ver o espírito do animal junto ao corpo. – Os cães não têm alma?

A partir desse ponto, não se lembrou de mais nada.  Simplesmente apagou.  Quando acordou, viu-se num lugar estranho, porém, muito confortável.  Era um quarto pequeno, reluzente de tão branco.  Uma cama perfumada e macia.  Um jarro de água cristalina e convidativa, pousado na mesinha ao lado.  Sedento, apanhou o copo e encheu-o, sorvendo o líquido rapidamente.  Estalou a língua, olhando ao redor.  Era bem parecido com o que vira em alguns filmes e novelas.

– Oi! – chamou. – Não tem ninguém aqui?

Em resposta, a porta se abriu, dando passagem a uma figura diáfana e brilhante.  Moisés sentiu um arrepio, mas não foi de susto.  Sabia estar diante de um espírito do bem, embora o achasse um tanto parecido com um fantasma.

– Estou aqui – foi a voz doce, que se aproximou para alisar seus cabelos.

Moisés soltou o copo em cima da mesa e abraçou-se a ela.  Reconheceu-a pela voz, em primeiro lugar.  Depois, quando o espírito adquiriu uma aparência um pouco mais sólida, distinguiu, nitidamente, o semblante de sua mãe.

– Mãe… – balbuciou ele, emocionado. – Não acredito…  Como é bom ver você novamente!

Lucélia o envolveu com ternura.  Fazia alguns anos que desencarnara, um tanto jovem ainda, vítima do câncer de mama.  Fora muito bem recebida, recuperara-se maravilhosamente e agora auxiliava na recepção dos recém-desencarnados.  Sentia muitas saudades de Moisés e nenhuma do marido, que a abandonara por uma mulher mais jovem, com quem vivia até hoje.

– Não está triste porque desencarnou? – ela perguntou, ainda afagando os cabelos dele, tal qual fazia quando ele era criança.

– Não – foi a resposta firme. – O que tinha a vida a me oferecera além de desgraça?  Minha mulher me deixou, perdi emprego, casa, tudo.  Nem dignidade possuo mais.

– Engano seu.  Você é uma pessoa muito digna.  Aceitou sua nova condição sem se revoltar e seguiu vivendo honestamente.

– Ninguém quis me ajudar, mãe – ele choramingou, lembrando-se de todos os que lhe viraram as costas.

– Não guarde raiva nem ressentimento.  Cada um agiu da forma que pôde.  E depois, se você reencarnasse em meio a parentes que lhe estenderiam a mão, como faria para cumprir seu destino?

– Destino?

– Não se lembra? – ele meneou a cabeça. – Foi você que quis virar mendigo.  A vida apenas colocou no seu caminho pessoas que o ajudaram a realizar esse desejo.

– Mas por que diabos eu desejaria ser mendigo? – indignou-se, um tanto quanto incrédulo.

– Isso não importa agora.  Pense apenas no que de mais importante você aprendeu.

– A passar fome?

– Acha mesmo que isso é o mais importante?

– Não propriamente.  O mais difícil foi engolir o orgulho.

– É por aí mesmo.  Você foi lapidar o seu orgulho.  E o fez dignamente, devo reconhecer.  Nós aqui ficamos muito satisfeitos com você.

– Nós quem?

– Eu e todos aqueles que o conhecemos e torcemos por você.  Seus amigos.

– Amigos…  Não tenho nenhum, a não ser… – ele levantou os olhos, esperançoso. – Cadê o Tostão?  Estava indo atrás dele quando apaguei…

– Você foi adormecido para ser trazido para cá.  Eu, pessoalmente, cuidei de seus ferimentos, para que seu corpo fluídico não guarde sequelas do acidente.  Sente-se bem?

– Muito bem – afirmou, apalpando as costelas, que não doíam mais. –  Mas você não respondeu a minha pergunta.  Onde está o Tostão?  Tem alguém cuidando dele?

– Tem, claro.  Só que ele não está aqui.

– Onde está?  Quero vê-lo.

– Ele já foi levado.

– Para onde?

– Para um lugar onde cuidam de animais.  Será tratado e, posteriormente, encaminhado de volta à sua essência coletiva.

– Essência coletiva?  Como assim?  O que é isso?

– Os animais possuem uma espécie de alma-grupo, para onde retornam após desencarnar, carregando com eles as experiências que adquiriram em sua última existência.  É o que lhes dá o instinto, que é inato em todo ser vivo.

– Que coisa mais fria, mãe! – indignou-se. – E injusta, e insensível também!  Os animais não são como gotas de água, que se atira num balde e fica tudo misturado!  Eles têm sentimentos!

– Essa é a analogia mais utilizada para explicar o fenômeno…

– O quê?  Água no balde?  Não me interessa nada esse tal fenômeno.  Quero o meu cachorro de volta!

Ele se agitava freneticamente, caminhando pela sala como um louco acometido por incontrolável fúria.

– Acalme-se, meu filho.  Tudo é feito com amor, dentro da mais perfeita harmonia.  Não há sofrimento, nem dor, nem tristeza.

– Mas se fizerem isso com o Tostão, ele vai deixar de ser o meu Tostão, não vai?

– Infelizmente, sim – respondeu ela, espantada com a rapidez com que Moisés compreendera o processo. – Ele integrará a essência como um todo.

– Ou seja, ele vai perder a identidade dele.

– Vai… – ela afirmou, hesitante.

– Isso não está certo!  Não podem fazer isso com o Tostão, ainda mais sem o meu consentimento.  Ele é o meu cachorro!

– Tenha calma, Moisés.  É para o bem dele.

– Não é, não.  Tostão ficará bem se ficar comigo.  Você tem que me ajudar a recuperá-lo.

– Não posso interferir nesses assuntos.  Não é atribuição minha.

– E de quem é? – ele perguntou, levantando-se bruscamente da cama. – Quero falar com essa pessoa.  Tostão não pode sumir, não pode.

Moisés chorava, descontrolado.  Achava que morrer seria um bem, mas agora parecia um pesadelo.  Podia aceitar qualquer coisa, até mesmo parar no inferno, menos separar-se de Tostão.

– Ele não sofrerá nenhum mal – ponderou Lucélia. – É a lei natural da vida.

– Lei natural?  Todos os cães passam por isso?

– Não exatamente – admitiu. – Alguns auxiliam na recuperação dos espíritos, outros estão prontos para reencarnar como pessoas e ficam aguardando.

– O que faz um cão virar gente? – interessou-se, acalmando-se um pouco.

– A proximidade com o ser humano, que lhe transmite uma grande porção de amor ou de ódio.  São sentimentos tão poderosos que, vividos com intensidade, imprimem naquele ser experiências que se tornam únicas e que acabam por despertar nele uma consciência ainda rudimentar, mas uma consciência verdadeira, uma noção de sua própria existência, de que é um indivíduo capaz de sentir e pensar por conta própria, ainda que o faça de uma forma precária e inconsciente.  Essas experiências se transformam em memórias individuais, que são arquivadas no corpo mental, gerando emoções e pensamentos específicos, que fazem com que ele sinta e pense com algum discernimento.  Ele sabe que é único e sua mente não aceita mais qualquer associação que possa desfragmentá-la.  Perde, então, os ligamentos energéticos responsáveis por reintegrá-lo ao grupo. É como a matéria-bruta que, depois de beneficiada, não pode mais retornar a seu estado primitivo.  Ou como a inteligência artificial que, ao ganhar a capacidade de pensar e sentir, afasta-se de sua natureza tecnológica para aproximar-se da essência humana.

– E o que acontece?

– Ele se destaca e retorna ao plano astral, onde é recolhido e cuidado.

– E o Tostão não pode ser um desses?

– Sinceramente, meu filho, não sei.  Na verdade, não sei muito sobre esse assunto.  Conheço o processo em geral, mas não o que acontece caso a caso.

– Pois eu digo que pode.  Tem que poder.  Não vou permitir que meu Tostão vire água no balde, não vou.

O grau de perturbação dele tornou-se preocupante. Tanto que Lucélia pediu ajuda aos enfermeiros, que tentaram segurá-lo.

– Vocês não podem me prender! – gritou, exasperado. – Sou um homem livre!

– Não queremos prendê-lo – Lucélia tentou tranquilizar. – Só queremos que você se acalme.

– Quero sair daqui!  Quero ir embora!  Onde está o Tostão?  Aposto como ele está perdido naquela avenida, me procurando.  Quero o meu cão!  Vou encontrá-lo.  Preciso encontrá-lo!

O pensamento ligado no cachorro formou uma ponte energética com a terra, e Moisés, inesperada e inexplicavelmente, se viu de volta ao local do acidente.  Não imaginava como fora parar ali, mas não importava.  Não sairia dali sem o Tostão.  A mãe dissera que ele estava sendo cuidado, mas onde?  Não fazia a menor ideia.  Talvez não fosse nada disso e ele tivesse simplesmente fugido.  Sim, era possível.  Tostão era esperto e, muito provavelmente, ao perceber a maldade que iam fazer com ele, arranjou um jeito de escapulir e voltar para a terra, assim como ele havia feito.  Só o que tinha era que procurar.

Os carros passavam, alheios à sua presença.  Moisés achou engraçado não ser atropelado por nenhum veículo.  Podia sentir-se poderoso, mas não se sentiu.  Ao contrário, lutava contra a sensação de impotência, do medo de nunca mais encontrar Tostão.  Com esse pensamento, levantou a cabeça e olhou para os lados, tentando imaginar por onde começaria sua busca.  Foi quando avistou uma pet shop do outro lado da rua.  Era o lugar perfeito para Tostão se refugiar e esperar por ele.

– Já estou indo, meu amigo.

Com essas palavras, Moisés cruzou a avenida movimentada e, sem abrir a porta da pet, entrou.

Um comentário em “O Melhor Amigo do Inimigo

  1. Mônica, acabei de ler este livro.
    E fiquei absolutamente extasiada. Conteúdo fabuloso, escrita perfeita. Vocês (você é Leonel) estão de parabéns. É totalmente envolvente e esclarecedor para aqueles que possuem pouco conhecimento, me incluo nisso principalmente referente a homeopatia que já utilizo mas não tinha conhecimento de como se dava o tratamento e qual era sua estrutura.
    Obrigada a ambos por mais este livro lindo.
    Amo demais seus livros.
    Gratidão,
    Monica Castilho

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