Desejo


O que fazer quando o amor filial vira obsessão e loucura?

Até onde você seria capaz de ir para satisfazer os seus desejos?

Daniela ainda era uma menina quando percebeu que não era como as outras.  Enquanto as garotas agiam de acordo com sua idade, ela tinha que lutar contra os próprios instintos e sufocar seus sentimentos mais íntimos, para não cair em tentação e revelar o seu terrível segredo.

Uma confissão chocante.  Uma vida marcada por julgamentos.  Uma história arrebatadora, que vai desafiar tabus e expor um amor obsessivo, originado em vidas passadas.

18 - Desejo

 

Editora Vida & Consciência

Lançado em 2014

Ordem de lançamento: 18º

 225 páginas

 

Que tal experimentar o começo do livro?

Capítulo 1

Gostaria de poder dizer que estava triste com tudo aquilo. Mas a verdade é que não estava. Meu pai foi um homem cruel e frio, e sua partida desta vida, com certeza, não deixaria saudades no coração de ninguém. Muito menos no meu.

A meu lado, meu irmão chorava com olhos secos. A dor transparecia em seu semblante como se fosse verdadeira. E era. A dor era verdadeira, mas o motivo era bem outro, e só eu o sabia. Passei a minha vida inteira a seu lado e o conhecia como ninguém, a ele e a meu pai. Nós, durante muitos anos, vivêramos em paz mas, logo após a morte de minha mãe, meu pai se transformou num estorvo em nossas vidas, e nós o teríamos matado, não fosse a imensa covardia que nos dominava.

Eu estava distante, suando sob o calor daquele sol tórrido, e nem percebi que os agentes funerários já haviam terminado de baixar o corpo à sepultura. Minhas tias, fingindo sofrimento, choravam copiosamente, talvez esperando que meu pai as houvesse agraciado com algum quinhão de sua pequena fortuna.

Ao fim dos serviços funerários, meu irmão se acercou de mim e falou:

– Por favor, Daniela, podemos ir?

Eu olhei para ele profundamente penalizada. Sim, queria partir dali, segurar em sua mão e fugir com ele para bem distante, onde ninguém nos conhecesse. Éramos felizes juntos, mas nossas vidas haviam se tornado sórdidas demais para serem compartilhadas, e não podíamos mais voltar a ser o que fôramos um dia. Nenhum de nós podia. Nem meu pai, que partira para o outro lado sem a chance de um adeus.

Depois de alguns segundos, acariciei o seu rosto e respondi com ternura:

– Está bem, Daniel, creio que já não há mais mesmo o que fazer por aqui.

Eu peguei na sua mão e comecei a me afastar, e os demais presentes puseram-se a nos seguir. Seguindo pela alameda do cemitério, pude ouvir fragmentos de suas conversas:

– E agora, o que será deles? – indagou uma tia.

– Acho que Daniel vai cuidar da irmã – respondeu outra.

– Será? Mas é tão novinho ainda – acrescentou uma terceira.

– Quase uma criança – observou uma vizinha.

E por aí foi a conversa. Mas ninguém se atrevia a falar diretamente conosco. No fundo, eu sabia o que estavam pensando. Queriam cuidar de nós, os abutres, para poderem colocar as mãos no dinheiro de papai, dinheiro que era nosso. Mas não precisavam. Eu já não era mais nenhuma criança e podia muito bem cuidar de mim e de Daniel. E depois, eu sabia que eles não se importavam mesmo conosco. Se se importassem, não esperariam papai morrer para demonstrar isso e teriam tentado superar a barreira de sua intolerância e rabugice para nos ver. Mas não. Quando papai passou a destratá-los, eles se acomodaram, e nós fomos ficando esquecidos pelo resto da família.

Daniel e eu éramos gêmeos e, por isso, recebêramos nomes semelhantes. Eu nascera cinco minutos antes, forte e robusta, mas Daniel viera ao mundo extremamente magro e franzino, e quase não sobreviveu. Talvez por isso tenha sido um fraco a vida inteira e sempre precisou de mim para cuidar dele e protegê-lo. Ele era extremamente bonito e generoso, e eu o amava acima de todas as coisas na vida.

Nessa época, contávamos apenas dezenove anos e vivíamos sozinhos em uma bonita casa no interior, um pouco afastada do centro da cidade. A casa era ampla e arejada, na verdade, uma pequena chácara, e meu pai era dono de uma próspera fábrica de vidros, o que lhe rendera uma fortuna razoável, que agora nos pertencia. Nós não tínhamos vontade, meu irmão e eu, de administrar pessoalmente os negócios e então mandamos chamar um dos advogados de papai, doutor Osório, pessoa da mais alta lisura e confiança.

Doutor Osório foi nomeado nosso gestor de negócios e deveria nos prestar contas no final de cada mês, depositando no banco o dinheiro que nos caberia. Com isso, nós tínhamos mais tempo para nos ocuparmos um do outro, e isso era tudo o que queríamos. Agora sim, poderíamos realizar nosso sonho de viver as nossas vidas sem qualquer intromissão, sem alguém que nos dissesse o que era certo ou errado, ou que era hora de parar. Pensando nisso, eu olhei para meu irmão e sorri, lembrando-me de quando tudo começou.

Certo dia, eu estava deitada numa rede na varanda quando vi Daniel se aproximar. Ele vinha correndo, trazendo nas mãos uma rolinha ferida, provavelmente quando tentara alçar seu primeiro voo.

– Daniela! Daniela! Veja o que achei – e exibiu-me o pássaro ferido, todo encolhido na palma de sua mão. – Será que vai morrer?

Eu examinei o animal com olhar crítico e dei o meu diagnóstico:

– Não vai não. Ele só está machucado. Provavelmente, foi a queda.

– O que faremos com ele?

– Não sei. Talvez seja melhor perguntarmos à mamãe.

Nós tínhamos treze anos e ainda não havíamos descoberto o quão estranha e ingrata a vida podia ser. Mas, naquele momento, nossa única preocupação era o animalzinho ferido, e corremos em busca de nossa mãe, que sempre resolvia nossos problemas com amor e bondade. Fomos encontrá-la na cozinha, ocupada com os preparativos do almoço. Nós tínhamos três empregadas em casa, mas minha mãe adorava cozinhar para meu pai. Ela o amava e o colocava acima de qualquer coisa, à exceção, talvez, de mim e de meu irmão. Ao ver-nos entrar apressados, ela soltou o frango que estava recheando e perguntou:

– Mas o que é isso, meninos? Aconteceu alguma coisa?

– Mamãe, mamãe! – dizia eu. – Daniel encontrou um passarinho, mas está ferido.  Mostre a ela, Daniel, vamos!

Daniel abriu a mão e mostrou o passarinho, mas ele não se mexia. Na ânsia de salvá-lo, ele apertara demais a mão e o bichinho sufocara. Ao ver o seu corpinho sem vida, Daniel desatou a chorar, sentindo-se culpado pela sua morte.

– Foi minha culpa! – repetia desolado. – Eu o matei!

– Não diga isso, meu filho – consolava minha mãe. – Não foi culpa sua. Sei que foi sem querer.

– Foi sim! Foi sim! Eu o matei e agora vou ter que pagar por isso. Deus vai me castigar!

– Meu filho, Deus não castiga ninguém. Foi um acidente, você não fez de propósito.

– É, Daniel – intervim eu. – Pois se foi você mesmo quem tentou primeiro salvar o bichinho…

A muito custo conseguimos consolá-lo. Daniel era um menino extremamente sensível e impressionável, e passou o resto do dia a lamentar a perda daquela rolinha. Quando meu pai chegou, minha mãe contou-lhe o ocorrido, mas ele não deu muita importância. Ao contrário, repreendeu Daniel duramente, e ainda hoje me lembro de suas palavras:

– Pare com essa bobagem, Daniel. Até parece um mariquinhas. Homem que é homem não chora!

Daniel viu-se obrigado a engolir o choro. Tinha medo de papai e não queria levar umas palmadas. Embora papai não costumasse nos bater, por vezes nos aplicava uma palmada ou outra, o que, por si só, já era bastante doloroso. Mas apanhar mesmo, nós nunca havíamos apanhado, até o dia em que o mundo desabou sobre nós.

Quando a noite chegou, fomos dormir, e Daniel estava ainda muito abalado. Por volta da meia noite, a casa toda escura, ouvi passos perto de minha cama e me assustei. Daniel estava lá, parado e chorando.

– O que você quer? – perguntei.

– Não consigo dormir.

– Quer deitar aqui comigo?

Ele fez que sim com a cabeça e eu cheguei para o lado, dando espaço para que ele se deitasse. Ele se deitou perto de mim e me abraçou, pousando a cabeça em meu peito. Em breve adormeceu, e quem não pôde mais dormir fui eu. Por alguma estranha razão, a presença de Daniel ali a meu lado me perturbava. Eu podia sentir o seu corpo pressionando o meu, e aquilo foi me enchendo de desejo. Apavorada, eu fechei os olhos e rezei, pedindo a Deus que afastasse aqueles pensamentos impuros da minha cabeça. Daniel era meu irmão, e aquilo não estava direito. Com o conforto da prece, o sono chegou e eu adormeci, somente despertando na manhã seguinte, segunda-feira, com minha mãe chamando:

– Daniela, acorde. Já é hora de ir para a escola.

– Hum… – fiz eu, ainda sonolenta.

– Vamos, levante-se.

Eu abri os olhos e procurei meu irmão. Ele não estava mais ali.

– Onde está Daniel? – indaguei.

– Acordou cedo e já se vestiu.

Em silêncio, eu me levantei e fui saindo em direção ao banheiro. Já na porta, minha mãe segurou-me o braço e falou meio sem jeito:

– Daniela, minha filha, quantas vezes tenho que lhe dizer para não dormir agarrada com seu irmão?

– Mas mãe – indignei-me –, que mal pode haver, se somos apenas irmãos?

– Mal não há. Mas não fica bem.

– Ora, mãe, que tolice. Você bem sabe que Daniel e eu sempre fomos muito unidos.

– Mas você agora já está uma mocinha, e Daniel já é quase um homem. E depois, você sabe que seu pai também não aprova.

– Eu sei, eu sei. Mas Daniel estava triste por causa do passarinho. Mamãe, você se preocupa à toa. Somos irmãos, e não tem nada demais em dormirmos juntos.

Ela não respondeu e saiu. Minha mãe sempre fora uma mulher bastante sensata e intuitiva, e creio que ali, naquele momento, pôde vislumbrar todo o drama que em breve se abateria sobre nós. Em seu íntimo, ela devia se lembrar de tudo o que já acontecera em outras vidas e sabia por que havíamos nascido irmãos, assim como deveria estar consciente de sua árdua missão de mãe.

Já à mesa do café, meu pai virou-se para minha mãe e falou:

– Eugênia, quantas vezes já lhe disse que não quero Daniel e Daniela dormindo na mesma cama?

Minha mãe olhou para mim, depois para Daniel, e abaixou a cabeça, tentando se desculpar:

– Ora, Gilberto, não foi nada. O menino ficou impressionado com a morte do pássaro, e Daniela só quis ajudar.

– Mesmo assim, não quero. Não fica bem. Daniela já é uma moça e tem seu próprio quarto. E Daniel também já é um homem e não deve se impressionar com essas tolices.

Eu olhei para meu irmão pelo canto do olho, mas ele nem se atreveu a levantar a cabeça. Depois do café, saímos e fomos esperar o transporte escolar na estradinha. Íamos em silêncio, com medo até de pensar.

Quando chegamos à escola, fomos para a sala de aula sem dizer nada. Como tínhamos a mesma idade e a escola era pequena, estudávamos na mesma classe. Entramos cabisbaixos e nos dirigimos para nossas carteiras. A minha ficava duas atrás da de Daniel, e a seu lado sentava-se uma garota magrinha, de nome Rita, de quem eu não gostava muito.

Rita vivia a insinuar-se para meu irmão, mas ele não lhe dava a menor importância. Naquele dia, porém, talvez em razão da bronca de papai, Daniel resolveu prestar-lhe um pouco mais de atenção, e ela derreteu-se toda para ele. Na hora do recreio, Daniel e Rita desapareceram, e eu saí atrás deles, louca da vida. Fui encontrá-los atrás do muro do pátio, e eles estavam se beijando. Horrorizada, não pude esconder a indignação e gritei:

– Daniel!

Ele soltou a menina e se virou para mim. Estava confuso, envergonhado. Eu, mais que depressa, pus-me a correr de volta para a sala de aula e não falei mais nada. Quando a sineta tocou, anunciando o término das aulas, levantei-me acabrunhada e saí para tomar a condução de volta, sem dar uma palavra sequer.

Em casa, depois do almoço, fui para o quintal, Daniel atrás de mim tentando puxar conversa:

– Ora vamos, Daniela, o que foi que houve? Por que está tão brava?

Eu não sabia o que dizer. Na verdade, não deveria estar zangada, mas o fato era que estava. Pior: eu estava morrendo de ciúmes.

– Pare com isso, Daniela, e deixe de besteiras. A Rita é apenas uma menina, não significa nada para mim.

Eu parei e me virei para ele, fitando-o com o olhar carregado de angústia:

– Mas você a beijou – desabafei por fim. – E na boca! Eu vi.

– E daí?

– Como pôde me trair?

Ele já ia responder, mas eu não lhe dei tempo. Segurando-lhe a cabeça, beijei-o apaixonadamente, e ele afastou-se de mim com um safanão.

– Ficou louca, Daniela? Somos irmãos!

Eu me atirei ao chão e comecei a chorar copiosamente.

– Eu sei, eu sei. Mas não pude evitar. Oh! Daniel, perdoe-me. Eu o amo e o desejo, e já não posso mais lutar contra esse sentimento. Sei que é errado, é pecado, mas não paro de pensar em você, em sua boca, em seu corpo…

Daniel ajoelhou-se a meu lado e me acompanhou no pranto. Como podia condenar-me, se ele também lutava contra aquele sentimento? Assim como eu, ele também me amava e me desejava, e só beijara a Rita porque não podia me beijar. Sua própria irmã.
Ele abraçou-se a mim e procurou a minha boca, beijando-me com sofreguidão. Eu me assustei. Não esperava que meu irmão me correspondesse, mas deixei-me ficar, perdida em seus beijos. Depois, começamos a nos acariciar e logo estávamos nos amando.

Depois desse dia, não pudemos mais nos separar. Aonde um ia, lá ia o outro atrás. Estávamos sempre juntos, de mãos dadas ou abraçados, e não saíamos com mais ninguém. Evitávamos as rodinhas de amigos, não tínhamos namorados. Rita ficou esquecida, Daniel nem olhava mais para ela. A paixão entre nós crescia vertiginosamente. Era um amor selvagem e carregado de culpa, mas nós não podíamos mais deixar de nos amar.

Em casa, nossos pais começaram a notar a diferença em nosso comportamento. Eu já estava uma mocinha, e era natural que os rapazes telefonassem à minha procura. Mas eu, sempre que podia, esquivava-me de falar com eles ou inventava uma desculpa para recusar convites para ir a festas e ao cinema. Daniel, por sua vez, também não ligava importância às garotas e vivia trancado dentro de casa, sempre em minha companhia.

Mamãe e papai estavam seriamente preocupados. Mamãe, sem saber por quê, tinha um estranho pressentimento, embora não pudesse sequer conceber a dura realidade. Papai, bastante desconfiado, também recusava-se a crer que seus filhos pudessem estar cometendo o mais abominável dos pecados, cujo nome tinha até medo de pronunciar: incesto.

Mas a verdade era uma só. Nós estávamos vivendo um amor intenso e incestuoso e, apesar da culpa que nos roía, não podíamos mais nos separar. Nada nem ninguém nos importava, só o nosso amor.

Até que um dia, o pior aconteceu. Nós havíamos chegado da escola e, como sempre, almoçamos e partirmos para o quintal, para nos encontrarmos sob a sombra de nossa figueira preferida, lá embaixo, perto do laguinho. Era um local escondido, e ninguém, a não ser nós, ia até lá. Mas naquele dia, mamãe resolveu nos seguir. Talvez já não estivesse mais agüentando aquela suspeita. Em silêncio, ela foi atrás de nós e parou quando nós paramos. Logo começamos nosso ritual de amor, nos beijando e acariciando, até que nos amamos como dois animais. Mamãe ficou chocada, tão chocada que não conseguiu falar. Em silêncio, voltou para casa e telefonou para papai, pedindo-lhe que viesse com urgência. Meu pai, que de nada sabia, retornou na mesma hora e logo foi colocado a par do que acontecera.

Quando voltamos de nosso passeio, estavam ambos sentados na sala, esperando por nós. Logo que entramos, a voz de papai se fez ouvir, forte como um trovão:

– Daniel e Daniela, venham até aqui imediatamente!

Nós nos olhamos alarmados. O que estaria fazendo papai ali àquelas horas? Ao entrarmos na sala e vermos as fisionomias graves de nossos pais, já sabíamos que eles haviam descoberto toda a verdade.

– Muito bem – prosseguiu ele –, quero saber o que está acontecendo nesta casa! Será que perderam a vergonha, o pudor?

Não adiantava fingir, nos fazermos de desentendidos. Eles não eram tolos, e tentar enganá-los só serviria para aumentar ainda mais a fúria de meu pai.

– Pai, deixe-me explicar – arrisquei.

– Cale-se, sua ordinária, cadela!

Levantou a mão, acertando-me em cheio no rosto. No mesmo instante, eu titubeei e caí, sentindo uma dor horrível na face, na boca um gosto amargo de sangue. Tentei me levantar, mas ele correu para mim e tirou o cinto, desferindo diversos golpes nas minhas costas. Eu comecei a chorar e a gritar, mas ele não parava. Minha mãe, assustada, tentou intervir, mas ele a repeliu com um empurrão, e ela tombou no sofá, amparada por meu irmão.

– Papai, por favor – suplicou Daniel –, vai matar Daniela.

Subitamente, ele me soltou e virou-se para ele, os olhos injetados de sangue.

– Venha cá, moleque, que lhe darei uma lição.

Partiu para cima dele, acertando-o em diversos lugares diferentes. Eu estava exaurida, não tinha mais forças para reagir, e minha mãe deixou-se ficar prostrada sobre o sofá. Até que, de repente, ele parou, ajoelhou-se no chão e desatou a chorar. Foi engraçado ver meu pai ali, vencido, chorando feito uma criança desamparada. Minha mãe levantou-se e acercou-se dele, abraçando-o com ternura. Ela ergueu a cabeça e me encarou, e havia tanta dor naquele olhar, que eu senti uma forte pontada no coração.

– Por quê? – indagou sentida. – Por quê? Não fizemos tudo por vocês? Por que foram nos trair assim dessa maneira?

– Mãe…

– Não, não. Deixe-me terminar. Vocês são reles e não merecem o nosso amor. Vocês traíram a nossa confiança, abusaram de nosso amor. Como puderam ser tão sórdidos?

– Mãe, por favor, posso explicar.

– Não, Daniela, não há explicação para o que vocês fizeram. Vocês são irmãos, têm o mesmo sangue, nasceram no mesmo dia e, no entanto, se deitam no meio do mato como dois animais. É isso mesmo o que são: animais. Porque só os animais copulam com seus irmãos e irmãs.

– É isso mesmo – concordou papai. – Vocês não são dignos de nosso amor e nosso respeito e, de hoje em diante, não os quero mais em minha casa. Aprontem suas trouxas e ponham-se daqui para fora!

– Mas pai – chorava Daniel –, você não pode. Aonde iremos? Somos menores e…

– Isso não me interessa. Deveriam ter pensado nisso antes. E depois, podem ainda ser menores mas, com certeza, já não são mais crianças. Eu bem que desconfiava, andando juntos, agarradinhos. Como fui burro!

– Não se torture, Gilberto, a culpa não foi sua. No entanto, Daniel tem razão. Você não pode mandá-los embora.

– Não posso? Pois já os mandei.

– Mas eles são nossos filhos. Devemos ajudá-los.

– Ajudá-los como, se são dois sem-vergonhas?

– Ainda assim, devemos ajudá-los. Eles devem estar doentes da cabeça, e podemos procurar ajuda psiquiátrica. Um bom médico há de curá-los.

– Mamãe, por favor – objetei –, não estamos doentes nem somos loucos. Apenas nos amamos.

– Cale essa boca! – berrou papai, esbofeteando-me novamente. – E não ouse repetir tamanha infâmia na nossa frente. Vocês são irmãos, e isso o que chama de amor é expressamente proibido para vocês.

– Ah, é? E por quem?

– Por Deus e pela Justiça. O que vocês fizeram foi abominável e não merece perdão.

Meu pai estava rubro de ódio, e pensei que ele fosse enfartar naquele momento. Minha mãe também deve ter pensado a mesma coisa, porque ainda tentou contemporizar:

– Gilberto, acalme-se…

– No entanto – prosseguiu ele, quase rugindo –, não vou mandá-los embora, apenas porque é sua mãe quem está pedindo. Mas é condição para que fiquem que consultem um psiquiatra. E não os quero mais juntos. Estão proibidos de se encontrarem sozinhos.

– Pai, não pode fazer isso! – protestei. – Você não tem o direito de nos separar.

– Basta, Daniela! Cale-se ou serei capaz de cometer uma loucura!

Achei melhor calar-me. Não adiantava mesmo discutir. Meu irmão estava apavorado e não ousava contrariar as ordens de papai, e tivemos que obedecer. Fomos bruscamente separados e, dali a três dias, estávamos freqüentando as sessões de um psiquiatra que nos olhava como se fôssemos uma aberração. Nós o detestávamos, mas tínhamos que ir, um de cada vez.

Em nossa casa, papai redobrou a vigilância sobre nós. Ele mesmo nos levava à escola e nos buscava, e deu ordens expressas à professora para que não nos deixasse sair mais cedo nem no meio da aula sem a sua autorização. Embora ele não tivesse declinado o motivo daquela proibição, a professora também não perguntou nada e fez como ele pediu. Ela nem de longe desconfiava do que se tratava, mas era assunto de família, e ela não tinha nada com isso.

Os outros alunos ficaram intrigados e não tardaram a criar uma história, na qual todos passaram a acreditar, e logo se espalhou a fofoca de que Daniel e eu deveríamos estar envolvidos com drogas. Aquilo foi extremamente duro para nós, porque todos os jovens, alertados por seus pais, passaram a nos evitar e mal falavam conosco. De repente, nós nos tornáramos delinquentes e não éramos mais companhia para os jovens de boa família.

Até que mamãe soube do que estava acontecendo e foi até a escola desfazer o mal entendido, justificando a proibição de papai com a alegação de que estávamos pegando a mania de fumar escondidos no banheiro, o que não era assim tão ruim. O mal entendido se desfez, porque a maioria dos jovens fumava também, e tudo voltou ao normal, embora a proibição continuasse.

Quando voltávamos para casa, almoçávamos, e Daniel tinha que subir para o seu quarto, enquanto eu acompanhava mamãe aonde quer que ela fosse. À noite, mamãe dormia em meu quarto, e eu só podia sair para ir ao banheiro ou beber água e, assim mesmo, em sua companhia.

Durante as primeiras semanas, até que funcionou. Mas depois, a ausência de Daniel começou a deixar-me louca. Eu não podia viver sem ele, e fazer sexo com ele, mais do que uma necessidade, era uma questão de sobrevivência.

Até que, numa noite em que mamãe dormia profundamente, eu me levantei e saí na ponta dos pés, seguindo direto para o quarto de Daniel. Experimentei a porta. Não ficava trancada, para que ele pudesse ir ao banheiro se precisasse. Papai recusava-se a dormir com ele, e só eu era constantemente vigiada por mamãe. Desde que estivesse com ela, não podia estar com Daniel.

Em silêncio, aproximei-me da cama de meu irmão, que dormia um sono agitado, e deitei-me ao seu lado. Ele abriu os olhos assustado, e eu colei minha boca à sua. Imediatamente, ele me abraçou e começou a me despir, enquanto murmurava baixinho:

– Oh! Daniela, que bom que veio! Já não podia mais suportar…

– Mas o que é que está acontecendo aqui? – era mamãe, que acendia a luz, ao mesmo tempo em que saía porta afora para chamar papai.

Eu me desvencilhei de meu irmão e corri atrás dela, implorando-lhe que não fizesse aquilo. Mas ela não me dava ouvidos e continuou a avançar para o quarto de papai. Apavorada, eu tentei segurá-la pela camisola, mas ela lutou comigo, até que se desequilibrou e caiu escada abaixo, rolando os degraus até chegar lá embaixo, o pescoço quebrado, já sem vida.

Ouvindo aquela confusão, papai correu para ver o que estava acontecendo. Ao se deparar com mamãe morta, estirada no pé da escada, desceu correndo e começou a chorar feito louco. Eu, penalizada, acerquei-me dele e falei com pesar:

– Pai, sinto muito… foi um acidente.

Ele me olhou sem nada entender e vociferou:

– Saia daqui! Deixe-me a sós com minha Eugênia!

Vendo que nada podia fazer, fui para a sala e peguei o telefone, para chamar um médico, que constatou o óbito. Como ninguém sabia de nosso drama, a morte de mamãe foi dada como acidente, e sequer houve inquérito. Mas papai passou a desconfiar de mim, pensando que eu a havia empurrado, e não pôde acreditar quando lhe disse que tudo não passara de uma fatalidade e que eu também estava sofrendo muito com a perda de mamãe.

Desse dia em diante, papai perdeu o interesse em nos ajudar e nunca mais nos obrigou a voltar ao psiquiatra. Passamos a conviver debaixo do mesmo teto, mas não de forma pacífica. Embora não nos tivesse expulsado, ele começou a nos maltratar e humilhar e, por vezes, a nos ignorar, mas sempre nos atirando na face o pecado que cometêramos. Mas não nos expulsava, e nós fomos ficando, acostumados àquela vida desregrada e desarmoniosa que se estabeleceu em nosso lar.

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