Apesar de Tudo…


Um filho é excelente estímulo às mudanças.

Vivemos em um mundo onde as convenções e as regras ditam preconceitos injustificáveis e cruéis.  As ilusões sociais nos levam, muitas vezes, por caminhos de uma falsa superioridade, que nos torna cegos diante das verdades da vida.  Somos todos iguais, e isso importa na liberdade que temos de ser diferentes, pelos padrões ditados por uma sociedade de aparências.

Somente quando conseguirmos nos desapegar de todas as ilusões criadas pela arrogância e o orgulho humanos é que seremos, realmente, livres.

17 - Apesar de Tudo...

 

Editora Vida & Consciência

Lançado em 2013

Ordem de lançamento: 17º

 493 páginas

 

 

Que tal experimentar o começo do livro?

Capítulo 1

O céu cinzento era prenúncio de que muita chuva ia cair naquele fim de domingo. Leontina estugou o passo, na tentativa de iniciar a subida até sua casa antes do temporal. Com as águas rolando, a lama desceria morro abaixo, tornando praticamente impossível subir sem um escorregão ou um tombo no lamaceiro.

– Vamos logo, Clementina – falou para a irmã. – Vai desabar um pé d’água.

Estranhamente, Clementina havia estacado diante de um latão de lixo. Parecendo oscilar entre a repulsa e a curiosidade, remexia em seu interior com a pontinha dos dedos. Leontina parou também e se aproximou, maldizendo Romualdo, que punha a cabeça da irmã naquele desatino. Na certa, ele havia ameaçado ir embora novamente, deixando Clementina feito uma doida sem raciocínio. Será que nem o culto daquela noite servira para pôr um pouco de juízo na cabeça daquela doidivanas?

– Mas o que foi que deu em você, Clementina? – reclamou, tentando puxar a irmã pelo braço. – Quer ficar toda ensopada? Olhe que já está relampejando.

Um raio despencou nas cercanias, e o estrondo ensurdecedor do trovão que o seguiu causou um calafrio em Leontina. Ela se encolheu e clamou baixinho por Deus, deixando o olhar perdido no céu por uns instantes, tentando adivinhar onde caíra aquele relâmpago. Esperava, sinceramente, que não houvesse sido perto de sua casa. Mais um sacolejo e o barraco não resistiria: viria ao chão feito um caixote desmantelado.

Ela se virou para a irmã, ainda segurando-lhe o braço mas, antes que pudesse dizer novamente venha, ouviu um choro miudinho partindo de algum lugar abaixo delas.

– Ué! – exprimiu impressionada. – Será que tem alma do outro mundo por aqui? Acho melhor a gente ir, Clementina. Já estou até ouvindo coisas.

– Fique quieta, Leontina! – exasperou-se a outra. – Será possível que você ainda não notou?

– Ainda não notei o quê…?

A pergunta ficou no ar, a resposta não veio. Seguindo a direção do dedo da irmã, Leontina estacou estupefata. Na mesma hora, grossos pingos de chuva começaram a cair, e ela apertou a bíblia de encontro ao peito, segurando na garganta o grito de susto que por pouco não deixou explodir.

– Meu Jesus Cristinho! – exclamou, por fim. – Isso é o que eu estou pensando que é?

Ainda sem responder, Clementina afastou o trapo engordurado e puxou cuidadosamente o corpinho retorcido de um bebê. Ele soluçava baixinho, fraco demais para expressar no pranto a fome que a barriga sentia. Clementina entregou sua bíblia para a irmã e acomodou o bebê nu em seu colo. Imediatamente, a criança começou a balançar a cabeça, como se buscasse alimento no seio sem leite de Clementina.

– Ele está com fome e com frio – constatou ela, protegendo-o com o próprio corpo. – E todo sujo, cheio de assaduras! Venha, vamos levá-lo daqui.

Sem dizer nada, as duas dispararam pela rua, iniciando a subida da ladeira que dava acesso ao morro. A chuva engrossava a cada instante, raios se precipitavam por toda parte, seguidos da barulheira infernal da trovoada. Como a criança, assustada, começou a gemer baixinho, Clementina tentou proteger seus ouvidos, para que ela não se incomodasse tanto com os ensurdecedores trovões.

Por sorte o barraco de Clementina não era muito lá no alto, e elas logo entraram correndo, respingando lama no cimento da sala. Clementina levou o bebê para o quarto e deitou-o na cama. Ele estava completamente nu, o corpinho trêmulo roxo de frio.

– Coitado! – apiedou-se Leontina. – Quem será que teve a coragem de fazer uma malvadeza dessas?

– Não temos tempo para pensar nisso agora – respondeu Clementina, enquanto apanhava no armário um cobertor furado e o deitava sobre o menino. – O mais importante é aquecê-lo e dar-lhe de comer.

– E ele come o quê? É tão pequenininho…

– Deve beber leite. Vou esquentar um pouco. E água para lavá-lo.

– Como é que você vai dar de mamar a ele? Precisa de uma mamadeira. E quem é que vai sair nessa chuva para comprar uma? – O olhar de súplica de Clementina já dizia tudo, e ela objetou: – Ah! Não, nem pensar! Eu é que não vou sair nesse aguaceiro!

– Por favor, Leontina. Ele vai morrer!

– Vá você, então. Eu fico aqui, tomando conta dele. Dou-lhe banho e tudo.

– E se o Romualdo chegar? O que é que você vai dizer a ele?

– Que você foi até a farmácia e já volta.

– Como vai explicar o bebê?

– Digo que o encontramos na lata de lixo, ué!

– Ah! Leontina, por favor. Faça isso por mim, eu imploro. Não quero deixar o menino sozinho.

– Acho que o melhor é a gente entregá-lo à polícia.

– Depois pensamos nisso. Agora, o importante, é fazê-lo comer. Olhe só o coitadinho. Além de roxo, está magrinho que só. As costelinhas estão até grudadas na pele.

Vendo a magreza do menino, Leontina se deu por vencida. Levantou-se de um salto e falou, impaciente:

– Está bem, está bem. Vou à farmácia. Mas quem vai pagar a mamadeira é você.

Com um sorriso de vitória, Clementina puxou a bolsa de cima do armário e abriu-a, contando as notas com cuidado, para se certificar de que não faltava nenhuma.

– Aqui – disse ela, estendendo o dinheiro para a irmã. – Traga uma bem baratinha. E se lá vender fraldas, compre um pacotinho também.

– Descartáveis?

– É claro que não! Fralda descartável é muito caro. Traga um pacote de pano mesmo.

Lá se foi Leontina, debaixo de chuva, comprar mamadeira e fraldas para o bebê. Enquanto a aguardava, Clementina admirava a criança, orando a Jesus para que a salvasse. Era um bebê tão bonitinho! Escurinho, da cor do Romualdo. Bem podia ser filho dele. E dela…

O pensamento foi tão rápido que Clementina quase não o percebeu. Já pensava no bebê como se fosse seu filho. E por que não poderia ser? A mãe o abandonara, o jogara no lixo. Por que ela, que o encontrara, não podia ser a mãe dele?

Procurando não pensar naquilo, levantou-se para esquentar a água e o leite. A leiteira estava quase vazia, mas ainda havia o suficiente para alimentar a criança. Ela acendeu o fogão e pôs o leite em uma boca, colocando, em outra, uma chaleira com água. Sentou-se à mesa para esperar, de olho no bebê. De onde estava, podia avistar o quarto, contíguo à sala que também servia de cozinha. Do outro lado, um banheiro minúsculo e, ao fundo, um pequeno quintal.

O leite era tão pouco que logo esquentou. A água demorou um pouco mais. Clementina apagou o fogo, voltou para o quarto com a chaleira e derramou a água morna numa bacia. O bebê estava de olhos fechados, tão quieto que ela temeu que tivesse morrido. Ela colocou a mão debaixo do seu nariz, para sentir-lhe a respiração que, de tão fraca, parecia que ia sumir. O peito ossudo subia e descia regularmente, embora sem muito vigor. Teve medo de que ele não resistisse.

– Por favor, Jesus – orou ela com fervor. – Não deixe o bebezinho morrer. Ele é tão pequeno, tão indefeso, tão puro… Ajude-me a cuidar dele para que sobreviva…

– Falando sozinha, Tina?

Clementina deu um pulo da cama e fitou o recém-chegado com espanto. Romualdo estava parado no umbral da porta, olhando-a com olhos vermelhos, encharcados de pinga. Aproximando-se, puxou-a com rispidez, beijando-a com volúpia. Ela afastou o rosto, torcendo o nariz, e reclamou:

– Solte-me! Não suporto esse seu cheiro de cachaça.

– Você está sempre reclamando – contestou ele, a voz pastosa e engrolada.

Quando Romualdo fez menção de se atirar na cama, Clementina soltou um grito estridente:

– Cuidado!

Com o susto, ele olhou para o leito. Só então percebeu o bebê adormecido sob o cobertor e a bacia com água sobre uma cadeira. De tão pequeno, dava a impressão de ser uma trouxinha de roupa em que ele mal havia reparado.

– O que é isso? – perguntou ele, tentando focar a vista na criança.

– Um bebê. Não está vendo?

– Isso eu sei. Mas de quem é?

A resposta foi tão repentina que até Clementina se surpreendeu:

– É meu. Meu filho.

– Que besteira é essa, mulher? Desde quando você tem filho? E ainda mais um bebê feito esse? Então eu não ia ver a sua gravidez? – Ele riu de si mesmo e voltou a mirar a criança, que permanecia imóvel sob as cobertas. – Está vivo?

– Está dormindo – falou ela, sem muita convicção.

– Parece morto.

Impressionado, Romualdo aproximou o rosto do bebê, que ainda não se mexia. Cutucou-o com os dedos, até que ele abriu os olhos e choramingou baixinho.

– Olhe só o que você fez! – censurou Clementina. – Acordou o pobrezinho.

Romualdo se aproximou da mulher, que havia pegado a criança no colo, e afagou sua cabecinha.

– É tão bonitinho!

– Você acha?

Ele assentiu e tornou curioso:

– Fale sério, Tina. De quem é?

– É meu, já disse.

– É claro que não é seu. Vamos, conte-me. É do pastor com alguma pilantra lá da igreja?

– Não fale assim do pastor! – rebateu ela furiosa. – Se você fosse à igreja, talvez não bebesse tanto e se acertasse na vida.

– Está bem, desculpe – ele abaixou os olhos, envergonhado, e mudou de assunto: – Ele parece estar com fome.

O bebê agora chorava com mais vontade. Clementina ninou-o gentilmente, tentando acalmá-lo.

– Não chore, bebezinho. Mas onde está a Leontina com essa mamadeira?

– Leontina foi comprar mamadeira?

– Como você espera que eu o alimente? Ele ainda não sabe beber em copo.

– Verdade… – ele ficou olhando a criança, até que continuou: – Tina…

– O que é?

– Você ainda não me disse como foi que ele veio parar aqui.

Não tinha jeito. Clementina não queria se afastar do bebê, mas precisava contar a verdade a Romualdo.

– Você jura que não conta a ninguém? – ele assentiu. – E vai me ajudar a ficar com ele?

– Ficar com ele? Mas Tina, o bebê tem mãe…

– Não tem, não! Mãe nenhuma faz o que fizeram com ele.

– Você já está fazendo mistério demais. Quer me contar logo de onde foi que veio essa criança?

– Primeiro você tem que prometer. Vai me apoiar ou não?

– Como posso apoiá-la numa loucura?

– Quando você conhecer toda a história, aí sim, vai ver o que é loucura.

– Muito bem. Vou apoiar você, desde que não tenha sequestrado o bebê.

– Que sequestrado o quê? Por acaso sou alguma criminosa?

– Deixe de enrolar e conte logo.

Clementina contou tudo em minúcias, acompanhando os olhares de espanto de Romualdo a cada passagem da narrativa. Ao final, ele estava com os olhos marejados mais pela emoção do que pelo efeito do álcool, que agora quase não sentia.

– Viu por que tenho que ficar com ele? – concluiu. – A mãe é uma irresponsável, criminosa. Onde já se viu deitar o filho fora na lata de lixo?

– Que horror! Tem razão quanto à mãe, mas acho que você não vai poder ficar com ele.

– Por que não? Fui eu que o achei.

– Um bebê não é um guarda-chuva que a gente apanha nos achados e perdidos. A polícia não vai deixar você ficar com ele.

– Quem falou em polícia? Não vamos contar nada.

– E você acha que ninguém vai descobrir?

– Só se você falar.

– Abra os olhos, Tina! As autoridades virão aqui buscá-lo.

– As autoridades não vão saber! Podemos registrá-lo como nosso filho e ninguém nunca vai ficar sabendo.

– Registrá-lo? Agora, sim, ficou louca de vez.

– Pense bem, Romualdo. Nós sempre desejamos ter um filho, mas Deus não nos deu. Agora, recebemos esse de presente. Por que temos que nos desfazer dele?

– Porque ele não é nosso. E a mãe, provavelmente, já deve estar atrás dele.

– A mãe o jogou no lixo! Ela não o quer. E ele também não haveria de a querer se soubesse o que ela fez.

– Olhe só para ele, Tina. Nós nem sabemos se ele vai sobreviver. E se esse bebê morrer nas nossas mãos? Você já pensou na encrenca em que vamos nos meter?

– Ele não vai morrer. E não diga mais isso. É só Leontina chegar com a mamadeira, que vou alimentá-lo. Ele vai sobreviver, vai crescer forte e lindo. E vai ser o nosso filho.

– Posso saber como você pretende fazê-lo passar por nosso filho?

– Você vai ao cartório e o registra como nosso. Pronto.

– Eu nunca registrei filho nenhum… não é preciso apresentar nenhum papel?

– Não sei, mas posso perguntar ao pastor. Ele deve saber.

– Logo ao pastor? Aí mesmo é que você não vai ficar com ele. O pastor vai obrigá-la a entregar a criança ao juizado de menores.

– Eu vou descobrir, Romualdo. Tem advogados na igreja para quem eu posso perguntar. Depois, registramos a criança e nos mudamos. Ninguém vai ficar sabendo de nada.

Por um momento, Romualdo ficou tentado a dissuadir Clementina daquela loucura e entregar a criança ao juizado de menores. Contudo, olhando melhor para o pequenino, seu coração se apertou. Ele sempre quis ter um filho, mas Clementina jamais engravidara. Ele a acusara de estéril várias vezes, mesmo sabendo que o problema era dele, consequência da caxumba que contraíra na infância. O orgulho masculino, no entanto, o impedira de contar a verdade, e Clementina sempre vivera se culpando por não terem filhos. Dinheiro para um tratamento, ela não tinha, de forma que nunca ficou sabendo que a incapacidade era dele, não dela.

Não seria essa a oportunidade de compensá-la por aqueles nove anos de casamento sem filhos? Ela não era mais nenhuma jovenzinha, mas ainda tinha bastante tempo de vida para criar um filho e vê-lo crescer. Os dois podiam. E ele sempre quisera uma criança, muito embora, intimamente, se demonstrasse resignado com a própria esterilidade. Aquela não seria a sua chance?

Olhando para os dois, ninguém diria que não eram mãe e filho, que não tinham o mesmo sangue. Até fisicamente eram parecidos. O menino era mulatinho feito Clementina, feito ele. Os cabelos ainda eram ralos, mas já dava para perceber que cresceriam crespos iguais aos deles. Quem negaria que eram seus pais?

A decisão estava tomada. No dia seguinte, segunda-feira, Romualdo iria ao cartório se informar sobre o registro do menino. Se dissesse que ele nasceu em casa, quem iria contestar? A partir de então, o menino seria seu filho.

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