Virando o Jogo


Cada um determina seu destino, que, a todo instante, pode ser modificado.

A maior causa de queda do homem reside na ilusão do poder.  Os que pensam que podem tudo, na realidade, nada podem, porque o verdadeiro poder pertence a Deus e àqueles que, por já terem trilhado muitas estradas na Terra, chegaram a tal estágio de amor que conquistaram o grau de espíritos iluminados.  Os mistérios da reencarnação somente a estes pertencem, inexistindo inteligência suprema que ultrapasse as barreiras do conhecimento divino, porque esse conhecimento é a essência do amor.

Seres inteligentes, que habitam o submundo astral, esforçam-se para disseminar seu poder sobre a Terra, gerando a alegoria dos demônios que espalham o medo para vencer as falanges do bem.  Eles nada mais são do que espíritos ainda empedernidos, apegados às ilusões da matéria que já não possuem, e que lutam, desesperadamente, para manter íntegra a hierarquia de terror e violência que estabelecem no astral inferior.  Mas não existe poder capaz de suplantar as forças do bem, porque o bem é da natureza divina e nada pode se contrapor a ele.

Pouco a pouco, essas verdades irão se desvendando aos olhos de Régis, cuja índole rebelde e imatura não permite perceber a realidade de sua vida e dos sentimentos que o rodeiam.  O confronto com a pureza do amor irá conduzi-lo em uma jornada de redescoberta de si mesmo e reavaliação de seus valores, levando-o a questionar onde, realmente, se encontra o poder.

16 - Virando o Jogo

 

Editora Vida & Consciência

Lançado em 2012

Ordem de lançamento: 16º

 420 páginas

 

Que tal experimentar o começo do livro?

Capítulo 1

Parecia que muitos anos haviam se passado desde a primeira vez em que trafegara por aquelas ruas. Passagens obscuras, vielas mal cheirosas, becos assustadores projetavam sombras indistinguíveis nas paredes nuas. O lugar era horrível. Já nem se lembrava mais de como fora parar naquele submundo. Ali era seu lar.

Mizael caminhava de cabeça baixa, pensando na vida que levara até então. Tudo o que fizera fora cometer crimes: roubar, matar, estuprar. Não sabia fazer outra coisa. Por mais que compreendesse que era errado, todo o seu corpo vibrava quando sentia escorrer nas mãos o sangue dos inocentes. Era algo que o enchia de prazer, era o alento que lhe dava ânimo. Pena que, algumas vezes, reconhecia, na intimidade do ser, uma insinuação de cansaço.

Ouviu um ruído estrondoso e olhou para o céu, sem conseguir vê-lo. Havia tantas nuvens pesadas que só o que pôde distinguir foi uma massa disforme de vapor gris. Em algum lugar por detrás daquele teto de chumbo, provavelmente, o sol devia brilhar.

Apressou o passo. Queria chegar logo à casa de Atílio. A reunião fora marcada às pressas, ele não sabia do que se tratava. Intuía que era algo importante, do contrário, Atílio não teria mandado o maltrapilho do Damien à sua casa com tanta pressa.
Quando ele chegou, logo notou uma movimentação nervosa. Todos entravam e saíam atarantados, vestindo uniformes negros, carregando armas pesadas. Era comum, em grandes operações, aquele alvoroço no bando. A quadrilha de Atílio era muito competente no que fazia. Bandidos e assassinos, todos tinham uma missão a cumprir. Poucos eram os que falhavam, e Mizael nem gostava de pensar no que acontecia aos que não cumpriam bem suas tarefas.

– Até que enfim! – exclamou Damien, logo que o viu entrar. – Mais um pouco e Atílio mandaria buscá-lo pelos cabelos.

– Não enche, feioso – rebateu Mizael, irritado.

Damien apertou os punhos, doido de vontade de acertar um murro na cara de Mizael. Mas não podia. Ele era intocável, o preferido do chefe. Pessoa da mais alta confiança, tinha praticamente todos os poderes que Atílio atribuíra a si mesmo.

– Você pensa que tem o rei na barriga, não é? – falou Damien com raiva. – Só porque é o queridinho do chefão acha que é melhor do que todo mundo?

– Por que não dá o fora, palhaço? Ou prefere que eu lhe dê uma lição?

– Um dia, isso vai mudar. Atílio ainda há de ver quem você é.

– Quem eu sou não lhe diz respeito. Você tem apenas que obedecer. A Atílio e a mim.

– Você pode enganar Atílio e os outros, mas a mim não engana. Conheço tipos como você.

– Devo sentir medo de você? – desdenhou. – Ponha-se no seu lugar, verme, ou sou capaz de esmagá-lo com meus punhos. Saia da minha frente, asqueroso. Ande! Chispe!

Engolindo a raiva, Damien se afastou. Até a chegada de Mizael, ele e Atílio eram como irmãos. Fizeram muitas ações juntos, envolvendo-se em roubos, assassinatos e muito mais. Não havia quem não os temesse. Foram anos dedicados ao crime, sempre escapando da polícia, ludibriando a justiça. Mas o cerco foi apertando, até o dia em que não lhes restou alternativa a não ser fugir e se refugiar ali. O local não era dos mais agradáveis. Era sujo, feio, fedorento, mas pelo menos ficava fora do alcance de vigilantes e soldados.

De repente, Mizael apareceu. Ele não fazia parte do bando original, mas conquistou a confiança de Atílio tão logo chegou. Tinha um jeito arrogante, frio, audacioso. Muito diferente dele, que, apesar de corajoso, era também servil. Mizael, não. Obedecia sem se mostrar subserviente.

Mizael não se juntou ao bando de imediato. Atílio já o conhecia, seus feitos no mundo do crime eram famosos. Mandou chamá-lo à sua presença, ofereceu-lhe um lugar na quadrilha. Mizael não só recusou, como também o desafiou. Queria tomar seu posto de poder. Atílio deu ordens para que ninguém os interrompesse e trancou-se com ele em seu gabinete. Horas depois, quando saíram, já não havia mais animosidade entre eles. Pareciam velhos conhecidos.

Aos poucos, Mizael foi subindo na hierarquia do bando, impressionando o chefe com suas façanhas inteligentes, audazes, intrépidas. Mizael não tinha medo de nada. Nunca tivera nem medo de morrer.

Com a projeção de Mizael, Damien começou a decair. Era bom para executar planos, contudo, não sabia planejá-los. Mizael, por sua vez, era excelente estrategista. Seus planos sempre surtiam efeito. Tanto que Atílio passou a confiar mais nele do que em qualquer outro. Dizia que Mizael o havia conquistado pela inteligência.

Havia algo mais naquela amizade. Damien sabia, sentia uma energia diferente fluindo entre eles. Uma camaradagem além do normal, uma simpatia tão forte que levava Atílio a defender Mizael em qualquer situação, justificando cada um dos raros erros que cometia.

Essas lembranças só faziam aumentar o ódio de Damien por Mizael. Relegado a segundo plano, Damien foi obrigado a aceitar se transformar no capacho de Atílio e do próprio Mizael. Por tudo isso, tinha motivos mais do que suficientes para odiá-lo e não acreditar nele.

De longe, Damien observava cada passo de Mizael, mordendo os lábios para conter a fúria. Mizael entrou calmamente na sala de Atílio, passando no meio dos comparsas que bajulavam o chefe. Muitos o olharam com antipatia, outros com medo.

– Mandou me chamar? – indagou ele, aproximando-se de Atílio.

Atílio estudava um documento e levantou os olhos quando ouviu sua voz. O sorriso que lhe deu poderia parecer gutural a quem não o conhecesse, mas Mizael sabia que aquele era um gesto cortês.

– Sente-se – ordenou Atílio. – Tenho algo muito importante a lhe dizer.

Sem nem desconfiar do que se tratava, Mizael sentou-se defronte dele. A um olhar de Atílio, todos foram embora. Quando o último comparsa fechou a porta, Atílio encarou Mizael e começou a falar:

– Temos estado juntos por muitos anos, não é mesmo?

– Sim.

– Durante todo esse tempo, sei o quanto você me foi leal.

– É verdade.

– Tão leal que é o único em quem confio para executar a missão que tenho em mente.

– Missão? – interessou-se. – Do que se trata?

– É uma missão especial e muito perigosa. Não sei se você vai gostar.

– Por que não?

– Você terá que nos deixar por uns tempos.

– Deixar vocês? – surpreendeu-se. – Não compreendo.

– Você já deve ter notado que o mundo está mudando. E creio que, daqui para a frente, as mudanças serão ainda maiores. A situação no oriente médio anda complicada. A coisa lá está preta.

– E daí? O que temos com isso? Não vá me dizer que quer se juntar ao Saddam Hussein!

– Deixe de besteiras, Mizael! Não é nada disso, por óbvio. Mas você tem que convir que ele é uma inspiração.

– Inspiração para quê? Por acaso vamos virar terroristas?

– É claro que não. Quero apenas que você perceba que, em todas as partes do mundo, há gente interessada na solidificação do poder. Como nós. Temos que conquistar nosso lugar no mundo através da força.

– Tudo bem. Mas como?

– Aí é que você vai entrar. O momento é propício a novas e ousadas ações.

– Que tipo de ações?

– Ações inesperadas, que surpreendam o inimigo em sua mais pura inocência.

– Por acaso você está planejando alguma guerra? – espantou-se. – Ficou maluco? Há muitos soldados por aí, bem armados e dispostos a tudo para nos deter.

– E daí, Mizael? Desde quando isso foi problema para nós? Mas não se preocupe. Não é a uma luta armada que estou me referindo.

– Continuo sem entender.

– Você, que é tão inteligente, não conseguiu ainda descobrir?

– Sou inteligente, mas não sou adivinho. Não vejo o que mais podemos fazer além do que já fazemos. Como disse, só nos falta uma associação com o terrorismo.

– Terrorismo é coisa lá para os Estados Unidos. Não funciona no Brasil. E depois, não seguimos ideologia alguma. Não, Mizael, não quero nada com esses fanáticos. Refiro-me é a uma infiltração.

– Mas nós já fazemos isso! Quantos de nós têm influência até sobre políticos e juízes?

– Não é desse tipo de infiltração que estou falando. Já foi o tempo em que só uma ação silenciosa surtia resultados. Precisamos de uma investida mais efetiva. Uma guerra está sendo preparada para o futuro e não podemos ficar de fora.

– Essa guerra a que você se refere não é uma luta armada, certo? – ele assentiu. – Se não vamos vencer o inimigo pela força, então, só pode ser pela inteligência. É isso?

– Mais ou menos. Precisamos nos expandir para além desses horizontes, ter uma atuação mais efetiva

.– Muito bem. O que quer que eu faça?

– Vai me obedecer sem questionar?

Uma imperceptível hesitação trespassou o coração de Mizael, mas ele manteve a postura firme e afirmou categoricamente:

– Você sabe que sim. Seja qual for a missão que tenho que desempenhar, estarei pronto para ela.

– Excelente! Não esperava outra coisa de você.

– E então? Vai ou não me dizer do que se trata?

Atílio fixou neles os olhos naturalmente ofuscados pela ira e disparou sem rodeios:

– Você vai reencarnar.

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