A Atriz


Tudo o que passamos deve servir para o nosso crescimento, não para o nosso desespero.

O que leva uma atriz sensual e famosa a abandonar uma vida de luxo e brilho para morrer em completa solidão?  Por que motivo um jovem rico e bem-sucedido se distancia da família e se entrega, impassível, à obsessão do passado?  E que elo poderoso pode unir essas duas pessoas que, aparentemente, nada têm em comum?

Glamour e decadência caminham lado a lado nessa história que se desenvolve em dois tempos, distantes na passagem dos anos, mas próximos nas experiências e nos sentimentos ainda não resolvidos.  Ódios nascem e são desfeitos; o amor se recolhe diante da indiferença, até que a dor traz a compreensão da vida e o perdão ressurge como chave para libertar a alma dos grilhões do ressentimento.

A Atriz vivencia a violência, a raiva e a decepção, transformando a morte numa passagem para o esquecimento e fuga.  Mas morrer não é a solução dos problemas, e ela descobrirá que só com coragem e amor é que poderá encontrar o caminho para a reconciliação consigo mesma.

12 - A Atriz

 

Editora Vida & Consciência

Lançado em 2009

Ordem de lançamento: 12º

 515 páginas

 

Que tal experimentar o começo do livro?

Prólogo

Por entre as flores recém-desabrochadas, Tália caminhava a passos vagarosos, aspirando lentamente o delicado perfume que se espalhava no ar. De quando em vez, detinha a caminhada e deixava o olhar vagar a esmo, como se buscasse algo no horizonte que não podia definir. Seria possível? Após tantos anos, já perdera as esperanças de que um dia a encontrassem. Estava perdida para o mundo dos homens e não devia mais se preocupar com ele.

Ainda assim, seu coração se apertava a cada passo. Sentiu uma comichão pelo corpo e se encolheu toda, e um frio lhe percorreu a espinha. Aos poucos, o frio foi aumentando, como se alguém a estivesse desnudando ao vento. O que seria aquilo? Levara muito tempo para se acostumar a não ter mais aquelas sensações, e agora isso? Olhou ao redor, mas nada lhe pareceu anormal. O ar estava tépido como sempre, e uma brisa suave refrescava sem enregelar. Se era assim, de onde vinha aquela sensação gelada que parecia penetrar-lhe até os ossos?

Resolveu voltar para casa. Fazia já algum tempo que conquistara o direito de ter uma casinha só para ela, o que era muito bom. Seu lar era muito simples, porém, bastante asseado e claro. Lá, tudo parecia mais límpido e branco, e o ambiente era sempre agradável e sossegado. Talvez fosse melhor se deitar um pouco. Quem sabe não estava ficando doente?

Doente? Não era mais possível ficar doente ali. No dia em que chegou, estava cheia de dores no peito, ardendo em febre e delirando. Logo adormeceu e, quando despertou, o peito parecia menos dolorido e a respiração, quase regular. Levou algum tempo para que se recuperasse de todo, mas finalmente conseguiu. As lesões em seu corpo fluídico lentamente se foram, e ela começou a se interessar pela nova vida. Aos pouquinhos, foi deixando para trás as lembranças daquela outra vida, cheia de brilho e de sofrimento.

Essas lembranças a entristeceram. Ninguém, em lugar nenhum do mundo, sabia o que fora feito dela. Nem ela sabia ao certo quantos anos haviam se passado desde que deixara a terra; nunca pensara naquilo. O bem-estar da vida espiritual era tanto, que as coisas da matéria deixaram de lhe interessar. Contudo, uma pontinha de tristeza começava a incomodá-la, despertando a dor de saber-se abandonada por aqueles com quem convivera tantos anos. Mas ela jamais retornara à terra para saber o que fora feito dos seus. Como podia agora esperar que se lembrassem dela, se ela mesma os havia esquecido?

Balançou a cabeça vigorosamente, tentando afugentar as lembranças, e alcançou o portãozinho do jardim, surpreendendo-se com a presença de sua mentora e amiga parada à sua porta.

– Sílvia! – exclamou. – Que surpresa boa. Vamos entrando.

Sílvia sorriu carinhosamente e beijou Tália no rosto, seguindo-a para dentro de casa. Sentou-se num sofazinho cor-de-rosa que havia perto da janela e esperou até que Tália se acomodasse a seu lado.

– Muito bem – falou Tália, apertando os braços gelados e sentindo uma repentina tontura. – Essa visita inesperada tem algum motivo especial?

– Receio que sim – respondeu a amiga, fitando Tália com uma expressão indefinível.

– Do que se trata?

– Trata-se de você. Seu corpo está sendo encontrado na terra, neste exato momento.
Com ar de assombro, Tália se encolheu toda e desatou a chorar, sentindo na pele uma umidade glacial.

– Como isso é possível?

– Não está se sentindo estranha?

– Tenho calafrios… e as lembranças de minha vida na terra surgiram repentinas… Mas não pensei estar ainda ligada ao corpo físico.

– Você não está ligada. O pensamento de certa pessoa foi que formou uma ponte energética com você, trazendo-lhe as impressões do que tem se passado na terra.

– Uma pessoa? Quem?

De repente, Tália viu-se transportada, ao lado de Sílvia, para o casebre onde seus ossos jaziam esquecidos. Algumas árvores penetravam pelas janelas destruídas, e o teto desabara quase por completo. O mato praticamente se fechara sobre o pequenino chalé e formara uma parede quase impenetrável ao redor. Alguns homens, com machados e marretas, estavam derrubando a porta, emperrada pelas dobradiças enferrujadas.

A golpes de machado, os homens derrubaram a porta e entraram. A sala estava toda em ruínas, com os móveis comidos e apodrecidos pelo vento e a chuva. Os homens penetraram devagar e foram percorrendo os ambientes do primeiro andar, passando pela sala, depois a cozinha e o lavabo minúsculo. Um deles se adiantou e experimentou o primeiro degrau da escada de madeira, que rangeu sob seus pés.

– Vai subir? – perguntou Márcio, um dos rapazes.

– É perigoso – respondeu outro.

– Vou subir. Se há alguma possibilidade de que o corpo de minha avó esteja lá em cima, quero descobrir.

Tália sentiu um choque. Como assim, avó? Buscou os olhos de Sílvia, que apertou a sua mão e esclareceu com voz carinhosa:

– Sim, Tália, é o seu neto que está aí. Seu neto Eduardo, que hoje está com vinte e três anos de idade.

Com olhos úmidos, Tália se aproximou do neto, que sentiu um leve arrepio e foi envolvido por estranha emoção.

– O que houve, Edu? – indagou Márcio. – Não está se sentindo bem?

– Não é nada.

Deixando de lado a emoção, Eduardo firmou o pé no degrau e começou a subir. A escada ia rangendo e alguns degraus afundaram, fazendo com que todos se sobressaltassem, inclusive Tália.

– Não se preocupe – sossegou Sílvia. – Ele não vai cair.

Tália agradeceu com o olhar e subiu com Sílvia atrás do neto. Eduardo chegou ao andar de cima e olhou para baixo, onde os outros o fitavam ansiosos.

– E aí? – perguntou alguém. – Tem alguma coisa?

– Vou olhar agora – respondeu Eduardo, virando-se para um segundo andar destruído e escorregadio.

A escada terminava numa espécie de saleta, com três portas ao redor. Intuitivamente, Eduardo se dirigiu à do meio e empurrou. A porta imediatamente cedeu, indo ao chão com estrondo e fazendo com que todos lá embaixo começassem a gritar.

– Não foi nada – berrou ele, para acalmar os amigos. – Apenas uma porta que caiu.

Com uma certa ansiedade, Eduardo passou por cima da porta e entrou no quarto frio e úmido, tomando cuidado com as tábuas soltas no soalho. Olhou de um lado a outro e viu algo envolto em trapos, sobre o que parecia ser uma cama de ferro. Tentando controlar os passos, caminhou para lá, e lágrimas lhe vieram aos olhos ao contemplar aquela estranha visão. Misturados aos trapos sujos, vários ossos se encontravam dispostos, formando um corpo humano perfeito.

– Edu!

– Eduardo!

– Diga alguma coisa, cara, estamos preocupados!

Os amigos não paravam de chamar, mas Eduardo não conseguia responder, fascinado que estava com aquela fantástica descoberta. No plano astral a seu lado, Tália chorava muito, fitando, pela primeira vez, os restos do que um dia fora o seu corpo. O neto, sem saber, captou-lhe as impressões e chorou também. Ajoelhado ao lado do colchão desmanchado, passou os dedos de leve sobre os ossos e soltou um suspiro.

– Ah! minha avó, então foi aqui que você se meteu, hein?

Em poucos instantes, Márcio alcançou o quarto e acercou-se de Eduardo.

– Puxa, Edu! Por que não respondeu? Estávamos preocupados… – calou-se espantado, vendo o monte de ossos aos pés do amigo. – É… é a sua avó?

– É o que parece. Mas só um teste de DNA poderá nos dizer.

– Meu Deus! O que vamos fazer?

– Recolher os ossos, dar uma olhada em tudo e ir embora. O resto é com o laboratório.

Márcio foi correndo, na medida do possível, buscar uma caixa. Voltou poucos instantes depois e ajudou Eduardo a colocar os ossos lá dentro. Com cuidado, foram fazendo o caminho de volta, escolhendo as tábuas em que deveriam pisar para não cair. Os amigos embaixo ajudaram a descer o caixote, e Edu e Márcio desceram em seguida.

– Pronto – disse Eduardo, batendo as mãos para limpá-las. – Missão cumprida.

– Será que é mesmo a sua avó que está nessa caixa? – indagou um dos rapazes.

– Edu vai mandar fazer um teste de DNA – disse Márcio. – Não vai, Edu?

– Vou sim. Ainda que minha mãe não queira nem saber, tiro o meu sangue e mando analisar tudo. Tenho que descobrir.

Ao ouvir aquelas palavras, Tália fitou Sílvia com ar de interrogação.

– Faz muito tempo que você desapareceu – esclareceu Sílvia. – Ninguém nunca soube do seu paradeiro. Pensaram que você havia largado tudo e sumido no mundo. Depois de algum tempo, começaram a desconfiar que você havia morrido. Procuraram daqui, indagaram dali, até detetive contrataram, mas ninguém conseguiu descobrir nada.

– Nunca encontraram esse lugar?

– Como poderiam? É longe de tudo, da cidade e das fazendas. Quando você comprou este sítio, usou seu verdadeiro nome, lembra-se? Maria Amélia Silveira Matos. Naqueles tempos sem televisão, quem é que ouviu falar em Maria Amélia?

– Mas ninguém nunca nem desconfiou de que eu poderia ter me escondido aqui?

– Como, Tália? Por que viriam a esse fim de mundo para procurá-la? Você nunca contou que havia comprado esse sítio.

– É verdade… – lamentou-se com pesar. – E como foi que me descobriram agora?

– Um homem comprou as terras vizinhas e se interessou por estas. Foi ao cartório da cidade, mandou fazer uma pesquisa e descobriu que o sítio havia sido comprado por uma tal de Maria Amélia Silveira Matos. Tampouco ele sabia quem você era, mas não foi difícil descobrir. O detetive que ele contratou investigou e descobriu que Maria Amélia era o nome verdadeiro de uma antiga e famosa vedete, Tália Uchoa, desaparecida na década de 1950. Com essa informação, o resto foi fácil. Ele achou a sua filha no Rio de Janeiro, e ambos chegaram à conclusão de que a assinatura no livro do cartório era mesmo a sua. Sua filha vendeu as terras sem nem titubear, mas seu neto, fascinado com as suas histórias, pediu para vir averiguar. O resto, você mesma viu.
Tália chorava de emoção ao ouvir falar de pessoas e coisas que há muito enterrara em seu passado. Sentiu que havia perdido uma grande parte de sua vida e olhou para o neto, que ia longe com os amigos e a caixa contendo seus ossos.

– Minha filha… Pelo que pude perceber, Diana não quer nem ouvir falar de mim.

– Ela ficou muito ressentida com o seu abandono e nunca conseguiu superar.

Ela balançou a cabeça, apertando os lábios para não soluçar, e indagou hesitante:

– Quem foi que a criou?

– O pai.

– Honório!?

– Ela tem outro?

– Mas… mas Honório não sabia que ele era o pai. Eu nunca contei…

– Você não contou, mas…

– Ione? – Sílvia assentiu. – Não pode ser! Ela me prometeu…!

– Você deixou uma filha órfã. O que esperava que ela fizesse?

– Não foi minha intenção abandoná-la.

– Mas a menina acabou ficando só, de todo jeito. Honório se revelou excelente pai, e Diana cresceu em um ambiente harmonioso e equilibrado, apesar de tudo.

– Ele criou Diana sozinho? Não acredito.

– Sozinho, não. Criou-a com a ajuda da esposa.

– Honório se casou? Quem diria… Com quem?

– Maria Cristina.

– O quê!? Honório casou-se a minha irmã? Como ele pôde fazer isso comigo? Ele sabia que Maria Cristina e eu não nos dávamos bem.

– Pois ela se deu muito bem com ele, e melhor ainda com Diana.

– Não é à toa que minha filha me odeia.

– Ela não a odeia. Foi criada pela tia porque a mãe sumiu no mundo e a abandonou. Como esperava que ela se sentisse?

– Eu não a abandonei!

– Mas é nisso que ela acredita até hoje.

– A verdade se perdeu depois que eu parti…

– Cada coisa está no seu lugar, seguindo o curso que a natureza traçou. E depois, não vejo por que se preocupar com isso agora. Não foi você mesma quem quis assim?

– Não quis me matar – respondeu Tália acabrunhada.

– Mas você morreu e a vida teve que continuar sem você.

– Honório… – divagou Tália. – Foi há tanto tempo… Como será que ele está?

– Se essa pergunta é para mim, saiba que ele está muito bem, apesar da idade avançada.

– Ele ainda está vivo?

– Hum, hum.

– E Maria Cristina? E Ione? E… os outros?

– Ele é o único que vive entre os encarnados. Os outros já partiram.

– Por que nunca os vi?

– Respeitaram a sua vontade de não ser incomodada e nunca a procuraram.

– E Honório?

– Está com mais de noventa anos e ainda goza de saúde regular para um homem de sua idade. Mas agora chega. Todos já se foram. Vamos embora também.

Tália olhou para a trilha aberta na mata por seu neto e os demais e percebeu que eles haviam desaparecido. Olhou mais uma vez ao redor e deteve o olhar por uns segundos a mais sobre o local em que seus ossos jazeram e sentiu o peito se confranger. Perdera uma parte importante de sua vida, enfurnada no astral como se ele fosse um campo de refugiados. Aquilo não era uma guerra. Os tempos de guerra eram parte do passado, assim como ela se tornara parte do passado também.

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