Só por Amor


Só não erra quem nasce Deus.

Naquele momento em que Januário deparou com a pequena criatura chorando no berço, algo em seu coração despertou.  Acostumado à frieza da sua profissão: assassino profissional, jamais esperou da vida uma recompensa por seus atos cruéis.

No mundo, não há crimes nem pecados, porque estes são apenas a face oculta do bem, que ainda não ganhou da vida a oportunidade de se expressar. Desconhecendo essa verdade, e preso ainda às armadilhas da culpa, Januário defronta-se, um dia, com a maior encruzilhada de sua existência: matar novamente ou deixar-se morrer.

A escolha que ele terá de fazer vai depender da voz de sua própria consciência que, em qualquer caso, vai lhe mostrar que só por amor o homem é capaz de orientar os seus mais primitivos instintos para sustentar a grandeza de sua própria humanidade.

10 - Só por Amor

 

Editora Vida & Consciência

Lançado em 2008

Ordem de lançamento: 10º

 447 páginas

 

Que tal experimentar o começo do livro?

Prólogo

Um silêncio morno e inquietante pairava sobre a noite cálida do sertão. Ao longe, por entre as árvores secas e os arbustos espinhentos, algumas corujas piavam baixinho, atingidas por aquela onda de calor noturno. Mais além, um riacho quase seco esbarrava nas pedras das margens, fazendo ressoar pela madrugada seu murmúrio de dor. Fazia tempo que não chovia, e toda a natureza se ressentia daquela seca.

A noite, porém, era silenciosa. De quando em vez, um gambá mais assustado corria em meio aos gravetos, fazendo-os estalar sob suas patas como fogo crepitando na madeira seca. Entremeados com a fuga dos gambás, ouviam-se passos cautelosos e muito bem direcionados. Devagar, Januário avançava pela escassez da mata. Rosto duro e austero, apalpou a arma na cintura e enxugou o suor da testa. Com a outra mão, apertou o galão de querosene que levava e prosseguiu com um suspiro. Já estava ficando cansado daquela vida. Ia fazer cinqüenta anos, não era mais nenhuma criança. Aquele seria seu último serviço. Diria ao coronel Agostinho que já estava na hora de se aposentar. O que juntara ao longo da vida era o suficiente para que ele e Antônia levassem uma vida tranquila e sem preocupações.

Coronel Agostinho sempre o recompensava bem pelos seus serviços e ainda permitia que ele saqueasse as casas e fazendas mais abastadas, antes de queimá-las. Jóias e pratarias, tudo caía em suas mãos, objetos valiosos que Januário ia vendendo e guardando todo o dinheiro no cofre que mandara instalar por detrás da parede de seu quarto. Apesar da estranheza, a mulher, Antônia não fazia perguntas e se contentava com as desculpas que Januário lhe dava: aqueles eram objetos que coronel Agostinho recebia em paga de algumas dívidas e lhe dava.

Mansamente, aproximou-se do casebre e espiou para dentro, pelas frestas da porta mal cerrada. A sala estava vazia e escura, e ele experimentou a maçaneta. Zé Mário havia descido a trava pelo lado de dentro, e ele não conseguiu entrar. Maldito cabra, pensou. Na certa, já desconfiava do que estava para acontecer. Tentando não fazer barulho, Januário soltou o galão perto da porta e seguiu rodeando a casa, esforçando-se para não emitir nenhum som. Testou a primeira janela, e nada. Estava fechada e dificilmente conseguiria abri-la sem fazer barulho. Passou à segunda. Também estava fechada, mas a aldrava que corria por dentro era visível pelo lado de fora, porque a parte em que as duas bandas da janela se encontravam era muito irregular, produzindo uma folga que deixava abertos vários pedaços na madeira.

Tirou o facão da cinta e enfiou pela fresta, subindo com ele bem devagar, até que a lâmina tocou a aldrava. Com a língua entre os dentes, fez força para cima o mais calmamente possível, e a tranca cedeu, subindo juntamente com a faca. Rápida e silenciosamente, Januário empurrou a janela, guardando o facão de volta no cinto.

Enxugou novamente a testa e colocou as mãos no peitoril. Corpo magro e ágil, não foi preciso muito esforço para saltar. Em poucos segundos, viu-se do lado de dentro da pequenina e tosca sala de Zé Mário. Espiou ao redor, fazendo um reconhecimento do ambiente, tentando acostumar os olhos à penumbra. Assim que identificou o local, pôs-se a caminhar pela sala, evitando os poucos móveis quase amontoados no cubículo. Avistou mais à frente a cozinha e, do outro lado, uma porta entreaberta. Só podia ser ali. Eram os únicos cômodos da casa, e não havia mais onde se enfiar.

Pé ante pé, encaminhou-se para lá. No mais profundo silêncio, empurrou a porta, que se abriu sem qualquer ruído, e entrou no minúsculo quarto. Sem pensar em nada, aproximou-se da cama. Zé Mário e a mulher, Edilene, dormiam profundamente. A seu lado, o rifle de dois tiros jazia em posição de ataque, bem ao alcance de sua mão. O tolo ainda pensava que teria tempo de passar a mão na arma e se defender.

Januário não perdeu tempo. Sacou a arma e fez pontaria, mirando bem na cabeça de Zé Mário. Fez pressão no gatilho, mas a mão começou a tremer e o suor voltou a escorrer-lhe pela testa. Enxugou o rosto novamente, respirou fundo e voltou a mirar. Aquele seria seu último serviço, não tinha mais dúvidas. A idade ia avançando, e ele já não tinha mais a mão segura e firme de outros tempos. Resolveu acabar logo com aquilo. Queria ir embora o mais rápido possível e voltar para os braços de sua Antônia.

O que diria Antônia se descobrisse o modo como ele ganhava a vida? Será que ela era tão ingênua a ponto de pensar que ele trabalhava para coronel Agostinho apenas como seu capataz e guarda-costas? Nunca lhe passara pela cabeça que ele já havia matado centenas? Ao longo de seus quase trinta anos de profissão, já matara muita gente; homens, mulheres e até crianças. Não gostava de atirar em crianças, mas o que fazer? Ordens eram ordens, e se coronel Agostinho mandava, ele obedecia. Seria por isso que Deus o castigara e jamais lhe enviara filhos? Por mais que Antônia fizesse, não conseguia engravidar. O tempo foi passando e, com ele, a vontade de ser pai. Januário queria muito encher a casa de crianças, mas não teve essa alegria e acabou se acostumando. Antônia engolira a frustração e também se acostumara. O que fazer? Deus era quem sabia, dizia ela. Se não lhe mandava filhos, algum motivo havia de ter.

Afastou aqueles pensamentos e voltou a se concentrar no trabalho que tinha que executar. Eram três mortes encomendadas ali. Coronel Agostinho estava de olho naquelas terras, mas o danado do Zé Mário não queria vender. Com a morte do cabra e da família, as terras seriam herdadas pela irmã, que morria de medo do coronel e as venderia sem titubear. Eram muitos acres de fazenda que Agostinho não podia desprezar. Além do mais, era pelas terras de Zé Mário que passava grande parte da água que abastecia as duas fazendas, pois a nascente do regato ficava justamente em sua propriedade.

Sem pestanejar, Januário apertou o gatilho, e um estampido seco ecoou pela noite. Em seguida, voltou a pistola para a mulher e atirou novamente, antes mesmo que ela pudesse gritar ou sequer compreender o que estava se passando. Januário ainda teve tempo de ver a sombra de terror que lhe perpassou os olhos, mas não se comoveu. Aquele era o seu trabalho, era para aquilo que era pago, e, depois de tanto tempo, o medo e as súplicas já não o impressionavam mais.

Com a frieza que lhe era peculiar, virou as costas para a cama onde o casal agora jazia fulminado, tingido pelo sangue um do outro, e dirigiu-se para o bercinho de madeira que ficava do outro lado da cama. Assim que disparara o primeiro tiro, o bebê desatara a berrar e a chorar, bruscamente despertado de seu sono inocente. Impassível, aproximou-se do berço e levantou novamente o trabuco, mirando bem entre os olhinhos da criança. Mais uma vez, pressionou o gatilho e piscou um olho, tentando enquadrar bem o rostinho em sua mira. Os dedos, mais uma vez, começaram a tremer, e Januário baixou a arma por uns instantes. Mas que droga, pensou, estava ficando mesmo velho.

Resoluto, fez pontaria novamente, incomodado com aquela gritaria desenfreada. Mirou de novo o rostinho do bebê e encostou o dedo no gatilho. Por que será que não tinha filhos? – era a pergunta que, naquele momento, fizera novamente a si mesmo. Intimamente, uma voz lhe respondeu: porque assassinos não têm coração, e um coração é o de que as crianças mais necessitam. Era um castigo, não podia deixar de pensar, porque já matara muitas crianças, sem dar ouvidos a seu choro e seus soluços inocentes. Inocentes? Sim, eram inocentes. Januário não gostava de matar os inocentinhos… mas coronel Agostinho mandava, ele fazia.

Subitamente, sentiu a vista turva e percebeu uma umidade morna descendo pelo seu rosto. Será que, além de velho, estava também amolecendo? O que estaria acontecendo com ele? Jamais tivera dramas de consciência. Por que é que agora não conseguia executar um trabalho tão simples? Lutou consigo mesmo e enquadrou novamente o bebê, dizendo para si que era questão de segundos para tudo estar terminado. A criança nem sentiria nada. E depois, era melhor morrer do que viver órfã. E, o que era pior, transformar-se em uma possível arma contra coronel Agostinho no futuro. Porque a criança iria crescer, e não faltariam bocas para sussurrar as desconfianças que pairavam sobre o coronel.

O homem era uma peste danada de rica. Fora assim que conseguira sua fortuna: matando e roubando. Quem se recusava a vender suas terras pelos preços irrisórios que ele oferecia levava chumbo do coronel. Ou melhor, dele, Januário. Era ele quem sempre executava seus servicinhos sujos. Todos desconfiavam, mas ninguém nunca conseguiu provar nada. Januário era cuidadoso e não deixava pistas. As evidências apontavam sempre para o coronel, porque toda vez que alguém morria, sua fortuna e suas posses aumentavam, mas não havia meios de se provar nada. Havia muitos cangaceiros por aquelas bandas, e Januário sempre fazia parecer que os assassinatos eram cometidos pelos bandos de insubordinados que vagueavam por ali. Chegou mesmo a acusar o próprio Lampião de haver assassinado algumas pessoas para vingar ofensas aos membros de seu bando. Era mentira? Todo mundo sabia que era. Mas quem é que se atreveria a contestar ou acusar um homem tão poderoso e temido feito coronel Agostinho?

Só o doutor delegado. O doutor Conrado bem que tentava, mas não conseguia enquadrar o homem em crime nenhum. Quem via alguma coisa não falava, e Conrado jamais pôde reunir provas contra o coronel ou contra ele, Januário. Por isso ainda continuava vivo. O delegado era uma ameaça, mas coronel Agostinho também sentia medo dele. O homem era filho de um desembargador importante da capital, e matá-lo poderia custar-lhe muitas investigações. Agostinho preferia não arriscar. Enquanto Conrado não conseguisse incriminá-lo, nada faria contra ele.

Com isso, Januário também estava seguro, porque o delegado, por mais que se esforçasse, não conseguia pôr as mãos nele também. Chegava sempre perto, mas a ausência de provas o impedia de prendê-lo. Era, por isso, obrigado a engolir a frustração e via o jagunço circulando livre pela cidade, sem que pudesse fazer nada para detê-lo.

Januário deixou de lado esses pensamentos e fixou os olhos no bebê que, agora mais cansado, parara de chorar e soluçava baixinho. Que idade teria? Pelo jeito e pelo corpinho magro, não devia ter mais do que três meses. Que pena, pensou. Um bebê tão bonitinho! Mas ele também precisava morrer. Foram as ordens de coronel Agostinho, e ele tinha que cumprir. Decidiu não pensar em mais nada e dar por encerrada aquela questão. Apontou novamente a arma para a criança, e sua mão, como das outras vezes, começou a tremer. Segurou o braço com a outra mão e fez pontaria, sentindo o suor escorrer de novo, misturado às lágrimas que sabia escorrerem pelas faces.

– Não posso! – chorou amargurado, deixando os braços caírem ao longo do corpo. – Deus, por quê? Por que não posso matar esta criança?

O neném, assustado, recomeçou a chorar, e Januário, mais que depressa, guardou a arma de volta na cintura e estendeu os braços para o berço. Com cuidado, retirou-o de sua caminha e estreitou-o contra o peito, batendo de leve em suas costinhas. O bebê, reconfortado, aquietou o pranto e acabou adormecendo. Vagarosamente, Januário saiu com ele. A alguns metros da casa, deitou-o no chão e falou carinhosamente.

– Não se apoquente. Tenho que terminar um trabalho, mas já volto para buscá-lo.

A passos largos, correu para onde deixara o galão e o abriu, espalhando o querosene por toda a casa, embebendo portas e janela, móveis e utensílios. Esvaziado o galão, atirou-o para o meio da sala e voltou para a porta, dando uma espiada no bebê, que permanecia quieto, no mesmo lugar em que o deixara. Maquinalmente, riscou o fósforo e atirou-o para dentro, correndo o mais que pôde. Em frações de segundos, as labaredas subiram aos céus, lambendo a casinha com fúria devastadora.

Januário apanhou a criança e ficou olhando o incêndio, sentindo que o calor da noite se intensificava sob as línguas de fogo. Esperou até que toda a casa estivesse tomada pelas chamas e só então virou as costas, trilhando de volta o mesmo caminho que percorrera para chegar até ali. Adiante, oculto entre as árvores e as sombras, seu cavalo o aguardava. Segurando o bebê adormecido com uma das mãos, Januário montou e esporeou o animal, partindo para casa em disparada.

Quando chegou, a madrugada corria alta, e Antônia ressonava na cama, a luz do abajur acesa e um bordado inacabado pousado sobre o colo. Januário aproximou-se dela rapidamente e a sacudiu, falando num quase desespero:

– Antônia! Pelo amor de Deus, Antônia, acorde!

Antônia passou a língua nos lábios e pigarreou, abrindo os olhos lentamente. Estreitou a vista por uns instantes, em busca de compreensão para o que estava vendo. Parado diante dela, estava seu marido. Isso não era nada demais. O estranho, porém, era que trazia um bebê no colo. Será que estava sonhando? Piscou várias vezes, na esperança de que o sonho se desvanecesse, mas ele continuava ali. Foi só quando Januário pousou o bebê a seu lado e começou a andar pelo quarto, falando e gesticulando feito louco, que ela realmente compreendeu o que estava acontecendo.

– Januário! – exclamou atônita. – O que é isso? Posso saber o que está acontecendo?

– Então você não vê, mulher? É uma criança. Um bebê…

– Isso eu sei. Mas o que é que ele está fazendo aqui?

– Não há tempo… – respondeu balbuciante, abrindo a porta do armário e retirando as roupas lá de dentro, jogando-as todas em cima da cama. – Precisamos nos apressar.

– Apressar? Para quê?

– Vamos, Antônia, levante-se daí e arrume nossas coisas. Vamos embora.

– Embora? Como assim? O que aconteceu?

– Não faça perguntas! Precisamos sair daqui com urgência. Fiz uma loucura… E quando o coronel Agostinho descobrir, vai ser o meu fim!

– Mas que loucura? O que foi que você fez? – vendo o bebê se mexendo a seu lado na cama, completou aterrada: – Não vá me dizer que você roubou essa criança! Foi isso, Januário? Você tirou a criança da mãe?

– Não…

– Mas então, como é que ela veio parar aqui?

– Não faça perguntas agora. Mais tarde, explicarei tudo. Agora, precisamos fugir. Por Deus, Antônia, quer que essa criança morra?

– Não… mas por que morreria?

– Levante-se daí, mulher! Será que você não pode se calar um minuto e me obedecer? Precisamos sair daqui o quanto antes ou, não só a criança vai morrer, como nós também!

Sentindo a gravidade na voz do marido, Antônia obedeceu. Levantou-se rapidamente e correu a apanhar as malas.

– Para onde vamos? – indagou preocupada, enquanto enfiava nas malas as roupas que podia.

– Ainda não sei. Pegue o que puder. O que não der para levar, deixe por aí.

– Deixar por aí? Vamos abandonar nossa casa, nosso lar, tudo por que lutamos durante todos esses anos, com tanto sacrifício?

Januário fitou-a com desgosto e retrucou angustiado:

– Não foi com sacrifício. Não com o nosso.

– Não entendo… O que quer dizer com isso?

Ele terminou de esvaziar o cofre por detrás de um quadro na parede e aproximou-se dela, segurando-lhe as mãos e olhando-a bem fundo nos olhos.

– Outro dia – começou, visivelmente transtornado –, um outro dia, Antônia, vou lhe contar tudo. Mas agora não. Agora, só no que consigo pensar é em salvar nossas vidas.

Uma estranha sensação arranhou o coração de Antônia, mas ela não disse nada. Apenas meneou a cabeça e continuou a arrumar suas coisas.

– E o bebê? – tornou, olhando para a criança adormecida. – Trouxe as coisas dele?

– Comprar-lhe-emos algo no caminho. Ele está dormindo, não dará problemas.

– Mas é muito pequenino. Ainda deve mamar no peito. Logo, logo, vai acordar, berrando de fome. O que lhe daremos?

– Vou apanhar leite na geladeira e vamos levar.

– Mas ele não sabe beber na garrafa!

– Daremos um jeito! Pelo amor de Deus, Antônia, vamos embora!

Antônia se calou e terminou de arrumar suas coisas, que Januário foi levando e ajeitando na carroça. O automóvel moderno que comprara, achou melhor não levar. Automóveis daquele tipo não eram comuns por ali, e o seu seria de fácil localização. Não. Apesar do desconforto, a carroça ainda era mais segura.

Enquanto isso, Antônia foi se sentar ao lado do bebê, admirando-lhe o rostinho adormecido. Quando Januário entrou de volta no quarto, para apanhar outras malas, ela perguntou curiosa:

– É menino ou menina?

Januário estacou e olhou para a mulher. Nem se preocupara com aquilo.

– Não sei – resmungou cabisbaixo. – Não tive tempo de olhar.

Ele saiu esbaforido, e ela, com cuidado, afastou as roupinhas do neném. Quase sem tocá-lo, abriu-lhe a fralda. Era uma menina.

– É menina! – falou entusiasmada, quando Januário chegou de volta.

– Ótimo – respondeu ele secamente. – É menina. Agora apanhe-a e vamos embora. Quero partir antes do amanhecer.

Sem dizer nada, Antônia ergueu a menina no colo e saiu apressada atrás do marido. Januário trancou a casa toda. Esperava que, quando o patrão desse pela sua falta, eles já estivessem longe. Afinal, era costume ele sumir por uns tempos depois de serviços grandes feito aquele.

Ao colocar os cavalos em movimento, Januário nem imaginava ainda que rumo iria tomar. Só o que sabia era que queria estar bem longe de Pedra Branca, aquela ridícula cidadezinha esquecida no interior do Ceará. Achou melhor seguir para Senador Pompeu e, de lá, apanhar um trem para o sul. Chegando à pequenina cidade, procuraram uma estalagem razoavelmente tranqüila e se hospedaram com nomes falsos. Logo em seguida, Januário saiu em busca de fraldas e uma mamadeira. Voltou pouco depois, trazendo a mamadeira e uma garrafa de leite fresco.

– Enquanto você a alimenta, vou comprar passagens para o sul – disse para a mulher.

– Não é seguro pegarmos a direção de Fortaleza.

Antônia sorriu, enquanto oferecia a mamadeira ao bebê, que chorava esfomeado. Imediatamente, a menina se acalmou, e Antônia ficou à espera de que Januário voltasse. Quando ele retornou, trazendo nas mãos as passagens de trem, ela o fitou com uma interrogação no olhar. Para Januário, não havia mais como fugir; era hora de lhe contar toda a verdade, e a verdade era que ele salvara a criança de um incêndio que ele mesmo provocara. Antônia ficou chocada, mas Januário prosseguiu. Se ela realmente o amasse como dizia amar, saberia compreendê-lo e aceitar. À medida em que Januário ia lhe narrando os episódios funestos de sua vida de crimes, Antônia ia empalidecendo mais e mais, o horror estampado em seus olhos vivos. Contou tudo, desde quando se iniciara naquela vida, até os momentos que antecederam a sua fuga, após ter matado Zé Mário e Edilene e fugido levando a menina, com medo da violenta reação de coronel Agostinho. Quando ele terminou a narrativa tenebrosa, ela estava chorando.

– Vai me condenar e me abandonar? – perguntou Januário, temeroso.

– Não… – balbuciou ela, entre lágrimas.

– Entende que fiz isso por nós?

– Não, não entendo, embora, em meu íntimo, já desconfiasse de algo. Só não queria enxergar.

Januário não conseguia desviar dela os seus olhos súplices e então indagou:

– O que pretende fazer?

Com um suspiro de dor, ela respondeu mansamente:

– Nada, não pretendo fazer nada. Temos agora uma filha para criar.

Com imenso alívio, Januário correu e a abraçou, mal conseguindo conter a emoção.

– Antônia… minha querida Antônia…

Ela, porém, repeliu o seu abraço e completou com voz firme:

– Prometa-me antes, Januário, que nunca mais irá matar novamente.

– Como posso lhe prometer isso?

– Vamos iniciar vida nova. Você, eu e a criança. Quero que você se transforme num novo homem. Do contrário, nem todo o amor que sinto irá me prender junto a você. Agora que sei, não posso conviver com a morte.

– Mas Antônia, entenda… Sou um matador!

– Você vai ter que escolher. Ou fica comigo, ou com a sua vida de jagunço. As duas coisas, não pode ter.

– É isso o que você quer? – suspirou, entre a contrariedade e a resignação.

– Sim. Essa é a condição para que continuemos juntos.

– Então está certo, se é o que vai fazê-la feliz. De qualquer forma, já estou ficando mesmo cansado dessa vida.

Agora sim, ela o abraçou comovida. Como o amava! Tanto que nem os seus horrendos crimes seriam capazes de destruir o seu amor. A criança, talvez atingida pela carga de emoção do momento, despertou faminta e aos berros, e Antônia se soltou de Januário, indo preparar-lhe outra mamadeira. Terminou de alimentá-la e deu-lhe um banho morninho, colocando-a para dormir em seguida. Depois que ela pegou no sono, pediram comida no quarto. Não queriam se expor em lugares muito movimentados. Na manhã seguinte, bem cedo, partiriam novamente.

– Para onde é que vamos? – quis saber Antônia. – Já decidiu?

Januário deu-lhe um sorriso amável e exibiu-lhe as passagens de trem.

– Para o Rio de Janeiro – respondeu com uma certa euforia. – Vamos de trem até Juazeiro e, de lá, tomaremos um ônibus para o Rio. Eu, você e nossa pequena Marisa…

Voltou o rosto antes que a mulher pudesse contestar o nome que ele escolhera para a menina que, dali para a frente, seria a sua filhinha. Antônia, porém, não demonstrou contrariedade. Sabia que Marisa era o nome de uma irmãzinha de Januário que morrera ainda bebê, e aceitara a idéia de coração. Era um nome bonito e gracioso, tal qual sua filha seria dali em diante. Sua filha e de Januário. De mais ninguém…

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