Lembranças que o Vento Traz


Sem a convivência com o próximo, as experiências cairiam no vazio, porque ninguém aprende dando e recebendo só de si e para si.

Este é o final da trilogia que se iniciou com o livro Sentindo na Própria Pele, passando por Com o Amor Não se Brinca até chegar a este, Lembranças que o Vento Traz, que encerra a história da família Sales de Albuquerque e da escrava Tonha, que a ela se ligou por laços de amor e ódio do passado.

A vida nos ensina muitas coisas.  Tudo aquilo que nosso coração teima em não enxergar, a vida coloca diante de nós, para que possamos empreender uma autorreflexão e modificar atitudes que não condizem mais com a nossa necessidade de evolução.

Assim é com Clarissa.  Desde sua saída do então próspero Vale do Paraíba, até a ida para a distante e isolada Cabo Frio, a vida vai tentando mostrar-lhe a necessidade de desapego do orgulho como forma de facilitar o seu crescimento espiritual.

Mas se desapegar nem sempre é tão fácil, por causa das Lembranças que  o Vento Traz.

9 - Lembranças que o Vento Traz

 

Editora Vida & Consciência

Lançado em 2007

Ordem de lançamento: 9º

386 páginas

 

Que tal experimentar o começo do livro?

Capítulo 1

Assim que os passarinhos começaram a piar do lado de fora, Clarissa despertou contrariada, espreguiçou-se, esfregou os olhos e olhou pela janela. Mais um dia de tédio na fazenda São Jerônimo, mais um dia sem nada de novo para fazer. À exceção de seu irmão Luciano e de sua prima Jerusa, não havia ninguém mais com quem conversar. A irmã mais velha, Valentina, era uma autoritária intrometida e andava ocupada demais com o bebê.

Clarissa ouviu batidas na porta e disse, sem maior interesse:

– Pode entrar.

A porta se abriu e a mãe entrou, cumprimentando-a com um sorriso:

– Bom dia, Clarissa.

– Bom dia, mamãe. Alguma novidade?

– Por que pergunta?

– Para a senhora vir ao meu quarto logo pela manhã, com certeza, algo de novo aconteceu.

– Você é muito esperta.

– Papai já voltou da capital?

– Ainda não.

– Então, o que é?

Ela olhou para a filha com ar divertido e anunciou:

– Sua encomenda acaba de chegar…

Nem era preciso ouvir o resto. Clarissa saltou da cama e jogou o xale sobre os ombros, descendo a escada às pressas e correndo para a sala. Logo que entrou, viu uma caixa grande perto da janela e pôs-se a saltitar de alegria. Completamente inebriada, começou a desatar nós e a puxar tábuas, tentando abrir a caixa o mais rápido que podia. Mas a madeira era dura, e ela não conseguia. Imediatamente, começou a gritar:

– Luciano! Luciano! Pelo amor de Deus, venha me ajudar!

Ouvindo aqueles gritos, o irmão apareceu esbaforido, seguido da outra irmã, que trazia no colo um bebezinho de meses.

– Mas o que é que está acontecendo aqui? – indagou ele, indignado.

– Veja, Luciano! – exclamou Clarissa, apontando para a caixa. – Papai cumpriu a promessa e me mandou o que lhe pedi! Venha, ajude-me a abrir!

Flora, a mãe, permanecia parada mais atrás, enquanto o filho ajudava Clarissa a abrir aquela caixa imensa. Estava muito bem atada e amarrada, e foi preciso buscar algumas ferramentas para soltar os pregos. Poucos minutos depois, as tábuas começaram a ceder, e Clarissa as ia puxando, cheia de excitação. Um cravo novinho em folha surgiu no meio de pedaços de madeira cerrada, e Clarissa bateu palmas de contentamento, alisando as teclas com os dedos longos. No mesmo instante, as cordas lá dentro ressoaram, e uma melodia suave invadiu o ambiente. Era maravilhoso!

– Onde será que papai arranjou dinheiro para comprar isso? – indagou Valentina, com desdém.

– Não seja desmancha-prazeres, Valentina – censurou a mãe. – Seu pai não prometeu? Então? Cumpriu a promessa.

– Todos sabemos que a nossa situação não é lá das melhores. Ontem nem tínhamos dinheiro que chegasse para as despesas, e hoje me aparece aqui esse cravo, vindo da capital, que deve ter custado uma pequena fortuna. Veja essas teclas. São de marfim!

– Qual o problema? – retrucou Clarissa. – Aposto que você está é com inveja.

– Não sei por que teria inveja de você, menina tola.

– Porque você não sabe tocar. Nunca conseguiu aprender.

– E quem disse que quero aprender?

– Parem com isso, meninas – ordenou Flora. – Não há motivo para brigas. O que importa é que seu pai comprou o cravo, não foi? E, com certeza, não precisou roubar nem extorquir nada de ninguém. Ou será que você pensa que seu pai virou ladrão de repente, Valentina?

– Não penso nada disso – respondeu Valentina de má-vontade. – Só acho que papai mima demais essa menina. Ele faz todas as vontades de Clarissa.

– E qual o problema? – tornou Clarissa, de forma desafiadora.

A criança no colo de Valentina pôs-se a chorar, e Flora considerou:

– Valentina, minha filha, creio que já está na hora de alimentar o bebê.

A contragosto, Valentina saiu da sala e foi para o quarto dar de mamar à filha. Depois que ela saiu, Clarissa e Luciano puseram-se a montar o cravo, encaixando o corpo sobre os pés. Tudo pronto, Clarissa puxou o banquinho e sentou-se para tocar. Estava afinadinho, e ela tencionava preparar um concerto para quando o pai voltasse.

Retribuiria o presente com outro, tocando para alegrar seus ouvidos. Flora sentou-se no sofá e ficou a admirar a filha. Ela era linda e meiga, apesar de um pouco voluntariosa e até mesmo atrevida. E como gostava de música! Clarissa saíra a ela.
Quando Flora se casou com Fortunato, ele permitiu que ela levasse o cravo que fora de sua mãe, e logo que os filhos alcançaram idade suficiente para aprender, pôs-se a ensiná-los. Mas Valentina não levava jeito. Não tinha ouvido e não se interessava em aprender. Luciano, por sua vez, era muito irrequieto e não tinha paciência para ficar longas horas sentado, o que lhe dificultava a concentração.

Apenas Clarissa se interessara. A menina, desde cedo, demonstrava um dom musical inato e ficava horas e horas entretida com a música, sem nem se lembrar das brincadeiras. Havia ocasiões em que vinha a prima da fazenda Ouro Velho, e faziam então lindas reuniões, com ela e a filha revezando-se ao cravo. Mas, por infortúnio, cerca de um ano antes, alguém deixara aberta a janela da sala, sob a qual ficava o instrumento, justo na época em que haviam ido em viagem à capital, a fim de assistir ao casamento de um parente distante. Era época das chuvas, e um temporal se abateu sobre a região. Pela janela escancarada, a chuva penetrou aos borbotões, encharcando móveis, tapetes e também o cravo. Quando voltaram da viagem, toda a mobília estava estragada, os tapetes manchados e a madeira do cravo inchada e cheirando a mofo. Clarissa e Flora chegaram a chorar de desgosto. Além do prejuízo, a perda do instrumento amado parecia-lhes irreparável. Mas Fortunato lhes prometera: assim que pudesse, mandaria vir um instrumento da capital, mais bonito e mais sonoro, último modelo na Europa.

Clarissa encheu-se de esperanças e não via a hora de receber o seu presente. No entanto, a situação das fazendas tornou-se preocupante. Toda a última safra fora perdida em virtude de uma praga fatal que atacara a plantação. Por mais que tentassem, os fazendeiros não conseguiam contê-la e, em pouco tempo, a devastação foi total. Seu pai perdera praticamente tudo, assim como seus parentes da fazenda Ouro Velho e alguns fazendeiros mais próximos. Dizia-se que o descuido e o desleixo do senhor Américo, proprietário de uma fazenda vizinha, acabara por trazer a praga, que em breve se alastrou pelas terras contíguas. A muito custo conseguiram exterminá-la, mas os prejuízos, além de incalculáveis, foram também irreversíveis.

Destruída a plantação, só o que lhes restava fazer era recomeçar. Mas como? Fortunato perdera quase todos os seus pés de café. Era preciso dinheiro para comprar novas sementes, plantá-las novamente e esperar que crescessem e frutificassem. Tudo isso levava tempo, e o dinheiro que possuíam não bastaria para agüentarem tanto. Por fim, convencido de que suas reservas não seriam suficientes para custear a plantação e a subsistência até a nova safra, Fortunato partiu para a capital, na tentativa de conseguir um empréstimo junto aos banqueiros. A situação era precária, mas Fortunato gozava de prestígio, o que, certamente, lhe facilitaria a obtenção do empréstimo.

Vendo o cravo que o marido enviara a Clarissa, Flora concluiu que ele conseguira o dinheiro e começara a gastar por conta. Estava feliz, sim, mas, pensando melhor, talvez Valentina tivesse razão. Seria prudente gastar tanto dinheiro por conta de uma safra que ainda nem existia? Uma sombra de preocupação passou pela sua mente. O marido, além de excelente negociante, era um homem prudente e comedido, e jamais contaria com algo que ainda não era, verdadeiramente, seu. Onde teria então conseguido aquele dinheiro? Será que vendera alguma propriedade? Era possível, mas todos os seus bens encontravam-se ali, naquelas duas fazendas, além de alguns poucos imóveis na capital, cuja renda dos aluguéis não era suficiente para cobrir-lhes todas as despesas. Estavam acostumados ao luxo e à riqueza, e não era fácil se contentarem com uma vida de economias e privações.

Jovem e sonhadora, Clarissa permanecia alheia a tudo isso. Os problemas financeiros da família não lhe diziam respeito. Se o pai lhe enviara o cravo, com certeza conseguira o dinheiro de alguma forma honesta. Além de Valentina, Luciano também estranhou. Ele amava muito a irmã mais nova e não queria estragar sua alegria, mas ficou seriamente preocupado com aquele cravo luxuoso. No entanto, preferiu não dizer nada. A mãe também parecia feliz, e ele não queria estragar tanta felicidade.

No dia seguinte, bem cedo, terminado o café da manhã, Valentina se levantou, entregou o bebê para a criada e perguntou:

– Trouxe as flores que lhe pedi?

– Sim, senhora. Estão no vaso, em cima da mesa da sala.

– Ótimo. Agora leve a menina para tomar sol. Mas cuidado, não vá esquecê-la lá fora.

– Pode deixar, dona Valentina, não esqueço, não.

Valentina levantou-se, foi até a sala de estar e apanhou as flores. Voltou à mesa do café, onde os demais permaneciam sentados, entretidos em animada prosa, e indagou:

– Vocês não vêm?

– Aonde? – retrucou Luciano.

– Hoje faz dois anos que vovô Rodolfo faleceu.

– Faz, é? – continuou o irmão.

– Faz, sim. Vou ao cemitério levar-lhe umas flores. Para ele e vovó Marta, que Deus os tenha.

– Faz muito bem.

– Vocês não vêm comigo? É dever da família velar pela memória de seus antepassados.

– Não creio que precise ir chorar sobre o túmulo de meus avós para me lembrar deles – objetou Clarissa. – E, se quer mesmo saber, vovô Rodolfo nem era tão bom assim.

– Você é uma menina atrevida e mal-educada, Clarissa, e devia se envergonhar de falar assim de nosso avô, que tudo fez por nós.

– O que foi que ele fez por nós além de nos recriminar por qualquer coisa? Não me lembro de nada que tenha feito para nos agradar. Já vovó Marta, não. Era meiga, atenciosa, amiga…

Valentina engoliu em seco e revidou:

– Você é uma ingrata, isso sim, e é melhor mesmo que não vá. – E, virando-se para o irmão, perguntou: – E você, Luciano, não vem?

– Quem, eu? Ah! não, não conte comigo. Tenho mais o que fazer. Concordo com Clarissa. Não precisamos nos debruçar sobre a sepultura deles para nos lembrarmos de que existiram.

– Vocês dois são impossíveis. Não é à toa que se dão bem. São iguaizinhos: egoístas, malcriados, desrespeitosos…

– Está bem, Valentina, agora chega – cortou Flora. – Deixe seus irmãos em paz. Eu irei com você.

Flora pegou o xale e saiu em companhia da filha. Ela também não gostava muito do sogro. Ele fora um homem aborrecido e irascível, e vivia esbravejando e xingando. A sogra, contudo, era diferente, e todo mundo gostava dela. Marta fora uma mulher boa e piedosa, e vivera uma vida de abnegação ao lado do marido, sempre disposta a auxiliá-lo e a fazer tudo por ele. Só ela era capaz de controlá-lo. Rodolfo sempre tivera um gênio terrível, e a esposa era a única a quem ele dava ouvidos.

Mas se Valentina gostava do avô, o que podia ela fazer? Afinal, tinham o mesmo sangue, e ela era bem parecida com ele. Sempre fora. O mesmo temperamento, as mesmas crenças, os mesmos ideais. Não era por outro motivo que Valentina sempre fora a preferida do avô, ao contrário de Clarissa e Luciano, com quem ele vivia a implicar e repreender.

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