Com o Amor Não se Brinca


Não se domina um sentimento fingindo que ele não existe.

Há quem diga que o amor é a base de tudo, porém eles se esquecem de que:

Há os que se anulam em nome do amor e acabam abandonados.

Há os que investem em tudo nos outros acreditando que serão correspondidos e vivem reclamando do egoísmo alheio.

Há os que sonham com um amor perfeito, pretendem encaixar o ser amado nesse modelo e acabam descobrindo que cada um é como é e não temos poder para mudar ninguém.

Há os que confundem paixão com amor.  Não percebem que a paixão é admirar no outro o que recalca em si.  Quando a ilusão projetiva desaparece percebemos o ridículo dos nossos atos apaixonados.

Há os que confundem apego com amor.  São egoístas que esperam do outro exatamente o que não se dão.

O amor verdadeiro nunca faz sofrer.  Traz alegria, motivação e prazer, agindo sempre com seu poder de harmonizar as relações humanas.

Quando ser feliz passa a ser um objetivo sério nós logo percebemos que com o amor não se brinca.

3 - Com o Amor não se Brinca

 

Editora Vida & Consciência

Lançado em 2002

Ordem de lançamento: 3º

 355 páginas

 

Que tal experimentar o começo do livro?

Capítulo 1

O dia amanheceu chuvoso e frio, mas todos estavam de pé logo cedo, prontos para seguir a urna funerária até o pequeno cemitério da fazenda, onde Licurgo seria enterrado ao lado da filha, Aline, e do genro, Cirilo. O cortejo seguia em silêncio, Palmira estampando no semblante toda a dor e a tristeza de haver perdido o companheiro de tantos anos. A seu lado, os filhos, Fausto e Rodolfo, tentavam ampará-la e consolá-la da melhor forma possível. Um pouco mais atrás, Camila, filha de seu primeiro casamento, ia cabisbaixa ao lado do marido e dos filhos, Dário e Túlio, talvez recordando as agruras por que passara naquelas terras. Junto dela, sua irmã, Zuleica, já bastante idosa, seguia de braços dados com a filha, Berenice.

Ao fundo, Terêncio, o capataz, chorava em silêncio. Amara seu Licurgo e sentiria muito a sua falta. Sabia que nem todos ali gostavam dele e muita coisa ele já fizera a seu serviço, mas Licurgo sempre estivera a seu lado, protegendo-o e defendendo-o, até da própria filha. Mas agora, o que seria dele? Já estava velho também. O que iria fazer se o mandassem embora? Abaixou a cabeça e começou a chorar, até que sentiu uma mão pousar sobre seu ombro e virou-se bruscamente. Era Aldo, o outro capataz, que lhe sorriu compreensivo. Ele respondeu ao sorriso com outro, meio sem jeito, e desvencilhou-se do companheiro, indo postar-se bem atrás de dona Palmira.

Parada um pouco mais além, uma mulher ocultava o rosto no manto de veludo negro e puído que lhe caía sobre as costas. Assistia a tudo à distância, e apenas seus olhos eram visíveis. Havia muita gente no enterro, e ninguém lhe prestou atenção. Apenas Terêncio, ao passar por ela, fitou o seu rosto, e uma sombra de reconhecimento perpassou-lhe a mente. Aquela mulher era-lhe familiar, mas não se lembrava de onde a conhecia. No entanto, aqueles olhos… onde já vira aqueles olhos escuros, de um verde quase cinzento?

Terminada a cerimônia fúnebre, todos voltaram para casa, e Palmira ia pensando em sua vida. O marido morrera já bem idoso e lhe deixara dois filhos maravilhosos. Olhando para eles, sentiu um aperto no coração. Eram gêmeos idênticos, e ela quase morrera ao dar-lhes a luz. Lembrou-se do parto difícil que tivera e do dilema para amamentá-los, tendo que contar com o leite de Tonha, para não matar seus meninos de fome.

Assim como Palmira, a negra Tonha também tivera um parto dificílimo, e a criança, pobrezinha, não resistira. Josefa e a velha Maria, antigas escravas da fazenda, tudo fizeram para salvá-la, mas o pequeno nascera mesmo sem vida. Tonha erguera o corpo do filhinho morto e chorara. Fora melhor assim. Ao menos a criança não teria o desgosto de viver como escrava. Seu filho nascera livre. Ao morrer, sua alma se libertara, e ele jamais conheceria o peso da chibata.

Por uma estranha coincidência, Palmira estava para dar à luz na mesma época em que Tonha. Quatro dias depois de o bebê de Tonha nascer, quando ela já havia voltado para a senzala, sentindo ainda as dores do parto, Palmira começou a sentir contrações, e a parteira foi chamada às pressas. Palmira tivera gêmeos e precisava de uma ama-de-leite para alimentá-los. Mandaram chamar a Josefa, indagando-lhe quem tivera filhos pela mesma época, que pudesse amamentar os pequenos. Contavam com uma negra forte e robusta, de nome Jacinta, que tivera filho poucos dias antes. Jacinta, no entanto, não resistira ao parto e morrera. Josefa, acabrunhada, respondeu:

– Sinto muito, sinhá, mas a única escrava assim é a Tonha. Jacinta teve criança, mas morreu…

– Tonha? Não quero aquela negra nojenta.

– Então, a sinhá me desculpe, mas não tem outra, não.

– Não é possível que ninguém mais tenha dado cria por esses dias – objetou Licurgo.

– Não deu não, sinhô. Tenho certeza.

– E agora, Licurgo – considerou Palmira –, o que vamos fazer? Não tenho leite para os meninos.

Josefa abaixou os olhos e ficou à espera de que lhe dissessem o que fazer. Licurgo mandou que ela saísse e esperasse na cozinha. Iriam resolver e, então, mandariam chamá-la. Logo que ela saiu, Palmira virou-se para o marido e exclamou:

– Não vou aceitar o leite daquela negra assassina!

– Palmira, pense bem. A idéia também não me agrada, mas não temos escolha.

Nenhuma outra escrava deu cria por esses dias, só a Tonha.

– Não, não quero. Mande Terêncio à vila comprar uma escrava leiteira.

– Mas minha querida, e se não houver nenhuma à venda?

– Então mande-o à vila vizinha. E mande o Aldo a outra. Alguém há de encontrar uma ama-de-leite.

– E enquanto isso, nossos filhos morrem de fome? Pense bem, Palmira, uma escrava leiteira não é assim tão fácil de se encontrar. E isso pode levar dias.

– Oh! Licurgo, por que não pensou nisso antes de nossos filhos nascerem?

– Eu pensei. Jacinta seria nossa ama-de-leite, mas teve que morrer. Que azar!

– E agora?

– Sinto muito, meu bem, mas não vejo outra saída. Temos que chamar a Tonha.

– Já disse que não quero aquela negra. Perdemos três filhos por causa dela, não haveremos de perder outros dois.

– Palmira, seja razoável. Na verdade, nós sabemos que Tonha não matou ninguém.

– Como é que sabe? Afinal, só ela sobreviveu. Não acha isso estranho?

– Por que ela faria isso? Estava apaixonada, iria ganhar a liberdade. Não vê que isso não faz sentido?

– Não sei. Vingança. Como vou saber o que se passa no coração desses negros ingratos? Não, meu caro, me desculpe, mas tenho todos os motivos do mundo para odiá-la e não a querer perto de nossos filhos.

Licurgo, durante alguns segundos, estacou e ficou olhando para a mulher. Não fazia nem um ano que perdera Aline, sua filha, e lembrava-se de tudo como se fosse ontem. Lembrou-se de que dera Tonha de presente a Aline quando ela era ainda menina, e que a escrava passara a ser sua protegida. As meninas cresceram juntas e, por uma cruel ironia do destino, Inácio, sobrinho de Palmira, por ela criado como se fosse seu próprio filho, acabou se apaixonando pela negra Tonha, com quem mantivera sigiloso romance. Aline, por sua vez, casara-se com Cirilo, filho do primeiro casamento de Palmira, e irmão de Camila. Contudo, Constância…

Ele se lembrava bem de Constância. Uma moça linda, filha de Zuleica, irmã de Palmira, era uma das preferidas no coração da mulher. Constância também se apaixonara por Inácio e tudo fizera para afastá-lo de Tonha. Não fosse seu ódio por Aline também, e ele, Licurgo, nem teria se importado com suas maldades para com a escrava. Mas Constância pretendia atingir também Aline, e isso ele não podia permitir e acabou por expulsá-la dali. Depois soubera que a moça voltara para a corte e que fugira logo após o casamento de Aline. Para onde fora? Ninguém o sabia.

Os olhos de Licurgo se encheram de lágrimas quando se lembrou da noite de núpcias da filha. Ele fora chamado às pressas por causa de um incêndio na fazenda Ouro Velho, para onde ela e Cirilo haviam ido, juntamente com Tonha e Inácio. Inexplicavelmente, um incêndio começara, talvez por causa de um monte de palha seca deixado sob a janela do quarto dos noivos. O incêndio destruíra toda a ala sul da mansão, e Aline, Cirilo e Inácio padeceram sob as chamas. Apenas Tonha se salvara. Disseram-lhe que Aline, tentando salvar a negra, empurrara-a para fora do quarto no exato instante em que uma pesada viga desabou sobre ela. Fora uma tragédia horrível, e só Tonha sobrevivera.

Pensando nisso, Licurgo não podia recriminar Palmira. Fora muito estranho, era verdade, e ele quase mandara matar a negra. Ao invés disso, optara por fazê-la sofrer todas as dores e humilhações de sua condição de escrava, atirada na senzala, experimentando na carne a ponta afiada do chicote.

Voltando à realidade, Licurgo considerou:

– Eu sei. Não tiro seus motivos. Em todo caso, não acredito que tenha sido ela. E depois, creio que ela já pagou um preço muito alto pelo seu atrevimento. Vamos, Palmira, reconsidere, pelo amor de Deus! As crianças estão famintas e precisam de leite. Ou quer que elas morram de fome?

Ao ouvir isso, Palmira não teve outro remédio senão aceitar o leite de Tonha. Afinal, era uma escrava e estaria apenas cumprindo suas ordens. Desse dia em diante, Tonha abandonou a senzala e voltou para dentro de casa, alojando-se no quarto dos meninos. Seria responsável pela sua criação, mas que não contasse com favores especiais. Cumpriria seu dever com zelo e perfeição, porque era uma escrava e devia obediência a seus senhores. Mas não fosse esperando tratamento especial por causa disso. Ela fora chamada apenas porque as crianças precisavam de leite, e não por uma deferência ou preferência pessoal. Era apenas um dever que tinha a cumprir, e Palmira esperava que ela o desempenhasse da melhor forma possível. Caso contrário, voltaria para a senzala, não sem antes passar pelo tronco.

Foi assim que Tonha passou a ama-seca dos meninos. A princípio, seria responsável por eles apenas durante o período de amamentação e, logo em seguida, voltaria para a senzala. No entanto, Tonha desvelou-se em atenção e carinhos para com Fausto e Rodolfo, e os meninos acabaram se apegando a ela. Embora Palmira e Licurgo tudo fizessem para levá-la de volta à senzala, o fato é que as crianças viviam a chamá-la e só iam para a cama se ela fosse junto, para contar-lhes as histórias maravilhosas que conhecia. Palmira não deixou de sentir uma pontadinha de ciúmes, mas acabou cedendo à vontade dos filhos, e Tonha foi ficando. Mesmo depois que cresceram, ela continuou como escrava de dentro, substituindo a velha Josefa, que falecera alguns anos antes.

Nesse ponto, alcançaram a casa grande, e Palmira pediu licença para se retirar. Estava cansada e precisava repousar. Afinal, já ultrapassara os setenta anos e as fortes emoções dos últimos dias acabaram por deixá-la extremamente fatigada. Já ia subindo as escadas quando ouviu a voz da filha atrás de si:

– Quer que lhe faça companhia, mamãe?

– Não, Camila, obrigada. Preciso ficar sozinha um pouco.

Subiu vagarosamente. A cada degrau que avançava, ia pensando na filha. Camila fora uma moça bonita e inteligente, embora sem juízo algum. Perdera a honra para um canalha, de nome Virgílio, a mando de Basílio, um antigo namorado, que armara uma trama para levá-la ao altar, só para ficar com seu dinheiro. Mas Camila, para surpresa geral, não aceitou desposá-lo, optando por entregar a vida a Deus e enclausurando-se num convento em São Paulo. No entanto, poucos anos após a sua partida, Palmira recebera a notícia de que ela iria se casar. Foi um alvoroço geral. Ninguém podia compreender o que havia se passado. Mais tarde, quando Palmira e Licurgo chegaram para o casamento, foi que souberam de tudo. O rapaz, Leopoldo, era sobrinho da madre-superiora e se encantara com ela, tendo sido logo correspondido. A princípio, a madre não quis permitir, julgando aquele amor uma blasfêmia. Mas depois, vendo que os jovens se amavam sinceramente, e não tendo Camila ainda feito os votos, resolveu ceder. Os dois se casaram em cerimônia simples e sem luxo, e continuaram a viver em São Paulo, onde Leopoldo era dono de próspero negócio.

Apesar de tudo, Palmira ficou feliz. Não desejava mesmo que a filha terminasse seus dias num convento, embora concordasse que, dada sua condição de moça desonrada, aquela seria a melhor solução. No entanto, se Camila encontrara um homem que a aceitara do jeito que era, e que não se importava em desposar uma moça já deflorada, para ela estava tudo bem. Licurgo também ficou satisfeito. A enteada já lhe havia dado trabalho demais, e seria um alívio saber que estaria segura e bem cuidada por um homem que a amasse e a sustentasse.

Palmira chegou a seu quarto e se deitou, virando-se para a janela e olhando o horizonte. Já era quase meio dia, e o céu continuava cinzento, com nuvens ameaçando chuva. Estava cansada, muito cansada. Vivera muitos anos ali, naquela fazenda, sob a guarda de Licurgo, e fora feliz com ele. Ao contrário do que muitos diziam, ele não fora um homem impiedoso e cruel; fora justo. Ainda com a imagem do marido no pensamento, adormeceu. Já não o tinha mais, mas ao menos possuía filhos. Eles, com certeza, não a abandonariam, e ela podia estar certa de que terminaria seus dias ali, junto dos seus.

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