Sentindo na Própria Pele


Como pode alguém viver sem a sua própria vida?

Nada substitui a experiência.  Entretanto, quando você se apressa em julgar as atitudes alheias segundo seus próprios padrões, acredita estar de posse da verdade.

Quanta ilusão!

Como saber o que vai no íntimo dos outros?

Como avaliar emoções que você nunca sentiu?  Como saber o que vai além das aparências?

Como descobrir os limites da sua resistência e certas tentações, se você nunca foi tentado?

A vaidade faz crer que você sabe a melhor solução para os problemas dos outros.

A sabedoria da vida tenta mostrar-lhe o relativismo do seu julgamento, trabalhando sua inteligência de várias formas, mas se você resiste, apegado aos próprios conceitos, ela coloca em sua vida uma situação igual à que você criticou, para que, sentindo na própria pele, você possa compreender esse relativismo e aprenda a respeitar a privacidade dos outros.

2 - Sentindo na Própria Pele

 

Editora Vida & Consciência

Lançado em 2002

Ordem de edição:  2º

 371 páginas

 

Que tal experimentar o começo do livro?

Capítulo 1

Tonha olhou pela porta aberta da senzala com olhos embaciados e tristonhos. Estava confusa e amedrontada, as mãos trêmulas a demonstrar as marcas que o peso dos anos lhe imprimira no corpo. Seus 97 anos, vividos entre o medo e as lágrimas, já se ressentiam dos inúmeros e sucessivos anos de luta e sofrimento, de angústia e desespero, da falta de amor e de solidariedade que presenciara tantas vezes.

Estava assim a cismar quando João, um negrinho bastante jovem ainda, apareceu na porta e indagou:

– E então, vó Tonha, não vem?

Tonha olhou-o com admiração, surpresa com a sua presença, e respondeu hesitante:

– O que disse?

– Perguntei se você não vem. A caravana já está pronta para sair, e todos já estão reunidos no terreiro. Só falta você.

Tonha desviou o olhar e fitou o horizonte, como que se lembrando do que estava acontecendo. Sim, pensou, era hora de partir. Mas partir para onde? O que seria de sua vida, dali para a frente? Há muito sonhara com aquele dia… sonhara com o dia em que a liberdade poria um fim nos anos de tortura e humilhação. Muitas lutas havia assistido pela conquista daquele dia. Foram surras e mais surras que presenciara, seus irmãos amarrados ao tronco, sentindo na carne a ponta afiada do chicote a castigá-los sem piedade. E para quê? Para terminarem seus dias como quando nasceram: prisioneiros de sua cor, de sua condição de escravos, de sua miséria. Voltou os olhos para João e, por fim, respondeu:

– João, para onde vão todos? Que farão daqui para a frente?

João, confuso, não sabia ao certo o que responder. Nunca pensara naquilo. Era jovem, saudável, nem era escravo, alcançado que fora pela Lei do Ventre Livre. Mesmo Tonha, com seus quase 97 anos de idade, alcançara a liberdade três anos antes, quando da promulgação da Lei dos Sexagenários. Permanecera na fazenda por opção, por não ter para onde ir, para poder ficar junto dos seus.

– Vó Tonha, não sei para onde todos irão. Só o que sei é que não quero ficar nem mais um minuto aqui, neste lugar horroroso, onde meus pais tanto sofreram, e você também. Venha comigo, por favor. Todos estão esperando por você. Não quer partir?

A velha encarou-o com ternura e compreensão, e retrucou, a voz embargada pelas lágrimas que, de mansinho, começavam a deslizar pelas suas faces.

– Meu filho, durante muito tempo não desejei outra coisa, senão partir daqui e nunca mais voltar. Mas agora… não sei.

– Como pode dizer isso? Você nunca foi feliz aqui.

– Esse é o mundo que me foi oferecido por Deus, e não me lembro mais de nenhum outro. O que será de mim lá fora? Não sofrerei mais? Sou sozinha, não tenho ninguém, nem filhos, nem irmãos, nada…

– Não diga isso. Você tem a todos nós. Somos a sua gente, o seu povo. Como pode pensar que está só?

– É muita bondade sua, João, mas não quero ser um entrave na vida de ninguém. Sei que estou velha, enxergo mal, já não posso mais trabalhar. Seria um fardo para qualquer um de vocês. E, além do mais, não sei o que nos aguarda do outro lado dessas serras.

– A liberdade, vó Tonha, a tão sonhada liberdade!

– Será, João? Será que arrebentar os grilhões de ferro será suficiente para nos tirar do cativeiro? Se deixamos de ser escravos, com certeza, permanecemos negros e pobres. E a gente branca não gosta de negros. Como sobreviveremos em um mundo dominado por brancos?

– Você está sendo muito dura. Pense naqueles que lutaram para que pudéssemos ser livres. Se há muitos brancos maus, com certeza há os bons também. Se não, continuaríamos ainda escravos.

– Talvez você tenha razão, não sei…

– Você está apenas com medo, é natural. No fundo, todos estamos. Mas precisamos lutar contra esse medo. Somos gente também. Não acha que merecemos nosso lugar no mundo como qualquer outra pessoa?

Tonha não respondeu. Cerrou os olhos e continuou a chorar baixinho. Ele estava certo. Era preciso lutar, e a luta ainda não terminara. A primeira etapa podia estar vencida, mas havia ainda a luta contra o preconceito. Sim, embora libertos, precisavam ser aceitos pelos brancos como iguais, como irmãos, filhos do mesmo Deus. Será que conseguiriam?

Ao abrir os olhos, João já não se encontrava mais ali. Será que tinha partido? Teria desistido de convencê-la e ido embora, com medo de que o abandonassem? Não. Tonha conhecia seu povo. Com certeza João, vendo que não conseguira convencê-la, saíra a buscar ajuda.

Olhando pela porta aberta, Tonha avistou ao longe a casa grande. Portas e janelas fechadas, parecia que ninguém vivia ali. Sequer a chaminé, sempre a expelir a gostosa fumaça do fogão, parecia ter vida. Era como se todos estivessem dormindo ou ausentes. Ninguém… ninguém aparecera para se despedir ou desejar-lhes sorte. Já era de se esperar. De todos os habitantes da casa, apenas Luciano e Clarissa se importavam. Apesar de serem bisnetos de Licurgo, não se pareciam em nada com ele. Ela até estranhou que os dois não tivessem aparecido para dizer adeus. De repente, porém, avistou-os cruzando o terreiro, acompanhados do negrinho João, que vinha gesticulando e apontando para a senzala. Pouco depois, os três apareceram na porta, e Clarissa, toda meiga, cumprimentou:

– E então, vó Tonha, como vai?

– Vou bem, minha menina, obrigada.

– Não vai embora? – ajuntou Luciano. – Todos os demais já estão prontos.

– Já sei, já sei. Só falta eu, não é?

– Parece que sim.

– Por que estão com pressa de se livrar de mim?

– Ora, vó Tonha, mas que besteira – censurou Clarissa. – Apenas não compreendemos por que não quer ir. Todos os escravos, quero dizer, ex-escravos, estão no maior alvoroço para partir.

– É verdade. Estão todos na porta da fazenda, prontinhos para ir, só aguardando você. O que está esperando?

– Não sei… – balbuciou – … tenho medo… Acho que… não quero ir…

– Estão vendo? – interrompeu João. – Eu não falei? Ela se recusa a ir, vai entender…

– Acalme-se, João – tranquilizou Luciano –, e deixe tudo por nossa conta. Pode ir andando. Logo ela estará com vocês.

João se afastou e Luciano encarou Tonha com ar de profunda admiração. Gentilmente segurando suas mãos, perguntou:

– Não quer nos contar o que está acontecendo? Pensamos que ficaria feliz com a abolição, no entanto, a encontramos aqui, toda lamuriosa, recusando-se a acompanhar os seus. O que houve?

Tonha, olhos banhados em lágrimas, apertou as mãos de Luciano e começou a chorar compulsivamente, dizendo entre soluços:

– Oh! sinhozinho, você não compreende. É muito jovem para compreender.

– Engano seu, Tonha. Compreendo muito bem. Sabe o quanto Clarissa e eu lutamos pela sua liberdade, mesmo contra a vontade de meu avô e de meu pai.

– É verdade, vó Tonha – concordou a moça. – Sempre estivemos do lado de vocês.

– Sim, eu sei, e fico muito agradecida por isso. Mas essa liberdade não é mais para mim. É para os mais moços, que ainda têm a esperança no coração. A liberdade que hoje espero é outra, e vocês não podem me dar.

– Como assim? Que liberdade é essa?

– É a liberdade da alma, que somente Deus é capaz de conceder.

– Não fale assim vó Tonha, fico triste.

– Não fique, menina. Você é também muito moça, e tem a vida toda para viver. Aproveite sua vida; eu já aproveitei a minha.

– Mas que besteira – censurou Luciano. – Você ainda pode aproveitar esse restinho de vida e viver os seus últimos dias em liberdade. Não seria bom?

– Sim, seria. Mas não longe daqui. Não tenho mais forças para isso.

– Ora essa…

– Por favor, me deixem ficar.

– Eu gostaria muito, mas não posso. Papai não quer mais nenhum negro aqui. Disse que, se querem ir, que se vão, mas que ninguém poderá ficar hospedado em suas terras. Foi o que ele disse.

– Oh! meu Deus, meu Deus! Rogo que não me abandonem. Sinto que, se partir, não viverei o suficiente para concluir a jornada. E gostaria de terminar os meus dias aqui, em segurança, onde sempre vivi.

– Ainda que longe dos seus?

– Ainda que longe dos meus. Eles têm a vida deles. Não tenho o direito de pedir para ficarem.

– Não sei, não. Papai ficaria furioso.

– Ora, Luciano, o que é isso? Agora deu para ter medo de papai?

– Por favor, sinhozinho, peça a ele – suplicou Tonha. – Não vou incomodar ninguém. Fico quietinha aqui no meu canto. Por favor…

Luciano estava confuso. Embora quisesse deixá-la ficar, temia que o pai não aprovasse. Clarissa, porém, resolveu dar por encerrada a discussão.

– Muito bem, Luciano. Vó Tonha pode ficar. Deixe papai comigo, saberei convencê-lo.

Ele olhou em dúvida para a irmã, e acabou por aquiescer:

– Está bem, fale com ele, então.

– Farei isso agora.

Clarissa saiu e voltou após quase uma hora, com a permissão para que Tonha pudesse ficar. O pai, finalmente, concordara, depois que Clarissa lembrou-lhe que a velha escrava havia sido ama-seca de todas as crianças dali, inclusive dele mesmo. Assim, ainda que meio a contragosto, o velho Fortunato acabou por concordar, não por gratidão à ex-escrava, mas para agradar à menina Clarissa, que era a preferida no coração do pai.

– Muito bem – foi logo dizendo, assim que voltou à senzala –, tudo resolvido. Papai concordou.

– Oh! bendita seja, sinhazinha! Muito obrigada, Deus há de lhe pagar em dobro.

– Mas o que é isso, vó Tonha? Não precisa agradecer, não.

– Como você conseguiu? – quis saber Luciano, cheio de curiosidade. – E tão rápido!

– Ora, irmãozinho, tenho meus métodos. Conheço papai, e sei muito bem que armas usar com ele.

– Bem, vá lá. O importante é que você conseguiu.

– Sim, e agora precisamos avisar aos outros que vó Tonha não irá. Papai disse que pode continuar no quarto das escravas de dentro.

Tonha chorava de gratidão. Os meninos eram-lhe muito dedicados e amorosos, e isso era um conforto para o seu coração cansado.

Os amigos de Tonha receberam a notícia com uma certa tristeza, mas acabaram por aceitar sua decisão. Afinal, ela tinha razão. Já estava velha, e a viagem poderia ser por demais penosa para ela. Isso sem contar que, efetivamente, seria um estorvo para os demais, que teriam que se preocupar com sua saúde e bem estar. Ficaram gratos à sinhazinha Clarissa e ao sinhozinho Luciano, que tão carinhosamente a acolheram e, depois das despedidas, partiram, sem levar na alma a mais leve sombra de pesar ou saudade da fazenda São Jerônimo.

Depois de confortavelmente instalada no quartinho que lhe fora reservado, Tonha passou a ser diariamente paparicada por Clarissa e Luciano, que a tinham na mais alta estima. Certo dia, quando conversavam sobre os tempos idos, Luciano indagou:

– Vó Tonha, por que não nos conta sua história?

– Ora, vocês já conhecem a minha história. Pois então não viram?

– Não, não. Você nunca nos contou como chegou aqui. Por que não nos conta tudo?

– E por que essa curiosidade do sinhozinho agora?

– Não sei. De repente lembrei que, no próximo mês, você fará 97 anos, e creio que deva ter muita coisa para contar.

– Hum, não sei, não.

– Ora vamos, vó Tonha – entusiasmou-se Clarissa. – Penso que seria emocionante.

– Talvez. Ou talvez vocês fiquem aborrecidos.

– Por que não experimenta? Talvez nos interessemos muito.

– Bom, se é assim que querem, não me custa nada. Ao contrário, até me fará bem recordar…

– Vamos, conte logo.

Tonha pareceu vagar o olhar, como que a buscar alguma coisa perdida no horizonte. Olhou para o céu e para o sol, que estava a pino, e lembrou-se de quando para ali fora, menina ainda, com seus poucos nove anos, trazida da África em um navio negreiro, juntamente com dezenas de seu povo. Vagarosamente, voltou os olhos úmidos para Luciano e Clarissa e começou a contar toda a sua história, desde o dia em que fora vendida aos brancos portugueses, há muitos, muitos anos…

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