Como Parei de Fumar


Muitos não sabem que já fui fumante. Fumava vinte, trinta cigarros por dia. Eu já era espírita nessa época, mas ainda não era escritora. E não tinha tido ainda um filho. Parece que foi há muito tempo, e foi… mais ou menos. Faz 18 anos que parei de fumar. Lembro até hoje. Foi numa segunda-feira, 22 de abril de 1996. No dia em que se comemora o descobrimento do Brasil, descobri do que sou capaz.

Acordei naquela segunda-feira sem nenhuma expectativa especial.  Levantei, tomei banho, me arrumei para trabalhar.  Fui tomar o café da manhã numa boa, e foi só quando terminei que me veio aquela vontade estranha e decisiva:  “Hoje, não vou fumar”.  E não fumei.

Eu já havia tentado várias vezes antes, sem sucesso.  Planejava, refletia, tentava me convencer.  Era sempre na segunda-feira, igualzinho à dieta.  Acordava, tomava o café da manhã e colocava em prática o meu plano:  Jogava o maço de cigarros fora e iniciava o meu dia, tentando não fumar.  Algumas vezes, conseguia ficar uns dois ou três dias, não mais do que isso.

Durante a manhã, até que ia bem.  Como não tomo café, não sentia a imensa vontade de que todo mundo falava, que era pior após o cafezinho.  Eu conseguia até a hora do almoço.  Mas depois da refeição, lá ia tudo a perder.  Eu não aguentava, ia até o bar mais próximo e comprava um novo maço.  Lembro até hoje:  Free Light.  Fui colecionando um fracasso atrás do outro.

Até que aquela bendita segunda-feira aconteceu na minha vida.  Sozinha em meu apartamento, decidi parar de fumar.  Sem planos, sem reflexões, sem tentar me convencer de nada.  Simplesmente, resolvi que não ia fumar. Após o café da manhã, fui trabalhar, levando comigo o maço de cigarros, dentro da bolsa.

Aonde quer que eu fosse, lá ia aquele maço comigo. Tinha medo de bater aquela vontade louca de fumar em algum local onde não pudesse comprar cigarros e saber que aquele maço estava ali me dava uma certa tranquilidade.  Eu não precisaria passar por nenhum desespero.  Se a vontade fosse incontrolável, bastaria abrir a bolsa que o maço estaria ali, disponível, pronto para mim.

Nos primeiros dias, foi difícil.  Sempre que terminava de comer, a vontade batia.  Eu pegava o maço, olhava para ele, pensava, sentia a tentação, quase cedia, mas, no fim, não me deixava dominar por ela.  Pensava que não queria pôr a perder cada minuto que eu havia conquistado sem o cigarro.  E colocava de novo o maço na bolsa.  Até que os minutos se transformaram em horas, as horas em dias, os dias em meses…  Daí veio o primeiro ano, o segundo, o terceiro e todos os outros em que eu havia conseguido uma vitória sobre mim mesma.

Levei bem uns seis meses até jogar aquele maço fora.  Quando o fiz, foi porque estava certa de que não precisaria mais dele, como não precisei.  Eu estava segura, confiante, não sentia mais nenhuma vontade de fumar.  Podia até acender o cigarro para alguém, que a vontade de tragar não vinha, não sei se por falta de desejo ou por medo.  Mas o fato é que, a partir daquele 22 de abril, nunca mais fumei em toda a minha vida.

Não vou dizer que foi fácil, porque não foi.  Mas não foi impossível.  Foi uma grande descoberta do meu potencial.

Tornei-me uma não fumante convicta, embora não seja daquelas pessoas chatas, que vivem criticando quem fuma nem reclamando da fumaça.  Se me sinto incomodada por alguém que está fumando, eu simplesmente mudo de lugar.

Resolvi contar essa experiência na tentativa de ajudar os fumantes que lutam para se livrar do vício.  Não adianta a gente ficar se cobrando nem se sentindo culpado.  A cobrança alheia, então, é pior ainda.  Já basta a cobrança interna.  Todo mundo sabe que fumar é prejudicial à saúde.  Não precisa ninguém ficar falando nem enumerando seus males.

Importante mesmo é a vontade e a força que se emprega sobre ela.  Parar de fumar tem que ser uma opção pessoal, algo que vem da consciência do mal que o cigarro faz.  Por isso, não dê atenção a essas cobranças.  Pense em você mesmo, no seu bem-estar, naquilo que você realmente quer.  Não destrua nem jogue fora o maço de cigarros como se, com isso, você descartasse o seu vício.  Não é assim que as coias funcionam.  O maço vai pro lixo, o vício permanece com você.

Reflita bastante sobre essa decisão e escolha o seu momento, aquele em que você se sente seguro, amadurecido, pronto para mudar e investir na sua saúde e na sua liberdade.  Sim, porque fumar, como qualquer vício, é uma verdadeira prisão.  Só que a chave da sua libertação está dentro de você, não nas cobranças exteriores.

Pense devagar, não tenha pressa.  Acredite em você, sinta que é capaz, trabalhe a sua mente de forma solitária, sem interferências da sociedade, da família ou de amigos.  Aos poucos, você vai dar esse salto, como eu dei, e firmar a vontade de ser livre sobre o prazer do vício.  Nunca desista, mesmo que lhe pareça impossível.  Não é.  Pode ser demorado, mas, quando você estiver pronto, tudo vai se modificar.

Parar de fumar foi a melhor coisa que fiz por mim em toda a minha vida.  E trouxe de volta algo que eu havia perdido, mas que reconquistei para sempre:

Liberdade!

corrente de cigarros

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